sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Milagre em Sant'Anna, de Spike Lee (2008)

O mais recente filme de Spike Lee, ou joint como o nova-iorquino gosta de chamar às suas obras, chega às salas de cinema portuguesas com um ano de atraso. Trata-se de «O Milagre em Sant'Anna», um filme que conta a história de quatro soldados negros durante a II Guerra Mundial, que integravam os chamados 'Buffalo Soldiers', durante a libertação de Itália.

Antes de chegar a território italiano, o filme arranca na Nova Iorque dos anos 1980, quando é cometido um misterioso homicídio por um empregado dos Correios (Laz Alonso, que interpreta o soldado em novo e em velho), que ficamos a saber mais tarde que é um dos soldados que integrou aquela companhia. A história é contada a um jovem jornalista (Joseph Gordon-Levitt, o miúdo da série «O Terceiro Calhau a Contar do Sol») através de flashbacks que nos enviam para a acção propriamente dita.

E nesta acção vemos a forma como os soldados negros eram tratados naquele período, quando ainda vinham longe as lutas pelos direitos civis. Esta faceta encontra-se bastante visível num episódio contado pelos soldados, passado durante a recruta no estado sulista do Luisiana, quando o dono de um café lhes recusa oferecer gelados que ganharam num concurso. Nesse mesmo café encontram-se membros da Policia Militar a guardar prisioneiros alemães (não se percebe bem como foram lá parar), todos brancos, e a comerem gelados.

Não nos podemos esquecer que este é um filme de Spike Lee, um realizador que tem lutado por mostrar a sociedade norte-americana a partir do ponto de vista dos afro-americanos, tirando algumas excepções como «Infiltrado» ou a «Última Hora». Mas este 'ódio', se assim se pode chamar, aos brancos fica um pouco de parte quando um dos soldados afirma que se sente melhor em Itália, onde não é tratado como um estranho devido à cor da sua pele.

Além desta faceta, surgem em paralelo várias histórias que se cruzam, entre as quais a do massacre da aldeia de Sant'Anna. Estas histórias incluem um rapazinho perdido que fica à guarda dos soldados, as lutas entre os resistentes italianos e até a recusa de alguns militares alemães em acatar as ordens dos superiores.

Nas cenas das batalhas, a câmara de Spike Lee está bastante bem, filmando momentos de tensão durante um cerco de uma forma simples e os momentos com mais acção recorrendo à câmara no ombro. Em ambos os casos, o realizador quase que nos leva a sentir o calor da batalha. Mas ainda assim não o suficiente como noutros filmes de guerra recentes que abordam a mesma época histórica.

Pegando numa abordagem diferente dos filmes de guerra tradicionais, em que a história se resume a batalhas famosas e a episódios de quase propaganda, Spike Lee consegue aqui fazer um filme de guerra original, contando-a do lado dos negros. Mas este não é um dos principais filmes do realizador, que na minha opinião filma melhor quando não sai de Nova Iorque.

Nota: 3/5

Site do filme no IMDB

Silent Night, Deadly Night III: Better Watch Out, de Monte Hellman (1989)

Na década de 1980 as séries de filmes de terror estavam na moda, atingindo maior popularidade com «Sexta Feira 13» e «Pesadelo em Elm Street». Recentemente os dois vilões destes franchises foram recuperados para um filme em que se enfrentavam, de seu nome «Fred Vs Jason».

A série «Silent Night, Deadly Night», cujo primeiro filme estreou em 1984, foi outra das séries de terror realizadas naquela década e chegou aos cinco episódios com o filme «The Toy Maker» em 1991. Pelo meio houve este terceiro episódio, realizado por Monte Hellman.

A série centra-se em Richard 'Ricky' Caldwell (Bill Moseley), um serial killer que ficou traumatizado com a morte dos pais em criança às mãos de um assassino vestido de Pai Natal. É também com este disfarce que mais tarde Ricky irá matar as suas vítimas. No terceiro episódio, este que nos interessa, o assassino que se julgava morto encontra-se em estado de coma num hospital e um médico (Richard Beymer, que iria mais tarde entrar na série Twin Peaks) resolve fazer experiências ligando-o a uma jovem cega com poderes psíquicos (Samantha Scully), no sentido de estabelecer contacto com Ricky e descobrir o que vai na cabeça dele.

O problema é que o assassino acorda mesmo e começa a carnificina. E se este filme até podia ganhar alguns pontos, até nem está mal feito e tem pormenores bastante bem conseguidos, tem outros que não lembram a ninguém. A começar pelo facto de a figura de Ricky ter o cérebro à mostra, dentro de uma espécie de aquário. E mesmo assim consegue pedir boleia quando foge do hospital sem ninguém o impedir, numa das cenas mais cómicas deste terceiro «Silent Night».

Depois ao longo da sua caminhada, onde tem como objectivo encontrar a jovem que o acordou, vai fazendo mais uma série de vítimas e como seria de esperar, ninguém sai ileso. E é tudo muito pobrezinho, apesar de conseguir pregar pelo menos um grande susto numa das cenas em que Ricky sai disparado de uma porta.

A título de curiosidade, este é também o primeiro filme para cinema em que aparece Laura Harring, que em 2001 fará dupla com Naomi Watts em Mulholand Drive, de David Lynch. Nesta sua estreia coube-lhe o papel da rapariga que mostra os seios, um outro cliché dos filmes desta altura.

Nota: 2/5

Site do filme no IMDB

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Entre Inimigos, de Martin Scorcese (2006)

Há filmes que merecem uma segunda oportunidade. Da primeira vez que vi este «Entre Inimigos», de Martin Scorcese, um dos realizadores que mais admiro, fiquei um bocado chateado e odiei o filme. Até tive uma grande discussão com um amigo meu sobre o filme e quando o vi ganhar o Óscar, frente a «Cartas de Iwo Jima» (talvez o mais belo filme de guerra de sempre), ia-me dando uma coisinha má.

Tudo porque gostei bastante do original de Hong Kong que é a base desta obra, de seu nome «Infernal Affairs». E no primeiro visionamento de «Entre Inimigos» deixou-me embasbacado, pois é um universo completamente diferente e não queria acreditar no que tinha acabado de ver.

Até que hoje resolvi tirar a prova dos nove e rever o filme de Scorcese. E constatei que o meu amigo tinha razão, o problema era ter bem fresco o filme original. É que tirando a base da história, «Entre Inimigos» não tem quase nada a ver com o original.

De facto, rever o filme sem me lembrar do outro fez-me ver um grande filme. Não ao nível do Martin Scorcese dos velhos tempos, mas mesmo assim um grande filme. A história é simples: um jovem (Matt Damon) que cresceu na máfia irlandesa de Boston, liderada por um excelente Jack Nicholson, injustamente não nomeado para o Óscar de secundário nesse ano, é colocado na polícia como toupeira. Paralelamente um outro jovem polícia (Leonardo DiCaprio, entretanto tornado o menino bonito de Scorcese) acabado de sair da Academia recebe uma oferta para se infiltrar no grupo mafioso.

É um tema que não é novo para o realizador nova-iorquino, basta recordar o excelente «Tudo Bons Rapazes». E aqui a violência está uma vez mais bem retratada. Estamos perante criminosos que não olham a meios para atingir fins. E estes meios vão desde bater em donos de lojas a cortar mãos, a um nível do mais sádico possível. Aqui temos uma boa prestação de Nicholson, em mais um dos seus papéis de maníaco que ninguém gostaria de conhecer num dia menos bom.

Tirando a polémica do Óscar e sem comparar com «Infernal Affairs», este filme é uma grande obra na filmografia de Scorcese. Teve a sorte de contar com grandes actores (além dos já referidos, «Entre Inimigos» conta com nomes como Alec Baldwin, Martin Sheen, Vera Farmiga e Mark Wahlberg, que muito me surpreendeu e considero que tem sido um actor em crescendo nos últimos anos) e o argumento também está muito bem estruturado.

Porque a história vai para além da questão dos agentes infiltrados. Aborda também seus sentimentos e a evolução das personagens à medida que o filme avança. Ninguém escapa às leis e aos acasos da vida.

No que diz respeito à banda sonora, além da entrada de «Brown Sugar», dos Rolling Stones (banda que já faz parte da carreira de Scorcese, nos minutos iniciais, onde o líder da máfia conta a sua história e como chegou ao topo numa brilhante sequência, há também uma música que fica no ouvido (Shipping up to Boston - The Dropkick Murphys) por juntar um rock de certa forma musculado a música de cariz tradicional irlandesa.

Mas mesmo apesar deste segundo visionamento, continuo a preferir o original de Hong Kong, realizado pela dupla Wai-keung Lau Alan Mak em 2002 e que acabou por ser uma trilogia.

Nota: 4/5

Site oficial do filme

The Spaghetti Western Database

E nas minhas pesquisas sobre o filme anterior, «Clayton, O Cavaleiro da Noite», deparei com este site: The Spaghetti Western Database. Trata-se de um site semelhante ao Internet Movie Database (IMDB) mas apenas dedicados aos filmes deste género. E está lá tudo e pelo que se constata é actualizado com uma certa regularidade. A última entrada é de dia 19 de Novembro.

Dedicado aos fãs dos westerns filmados na Europa, neste site encontram-se criticas, uma história bastante completa do género Spaghetti, noticias e artigos sobre os grandes protagonistas. Uma boa página para quem gosta deste tipo de western, que fez as delicias de muitos nos idos anos 1960 e 1970.

Link para o The Spaghetti Western Database

Clayton, O Cavaleiro da Noite, de Monte Hellman (1978)

«Clayton, o Cavaleiro da Noite» foi uma aventura europeia de Monte Hellman, pelos territórios do Western Spaghetti, numa co-produção italo-espanhola de 1978. E uma vez mais o realizador de «Cockfighter» espalha-se ao comprido. Tirando algumas honrosas excepções, nomeadamente a obra de Sergio Leone, os westerns filmados em território europeu não vão ficar para história como obras de qualidade.

Este é também o caso de «Clayton, o Cavaleiro da Noite». Só o nome em português já nos faz dar umas boas gargalhadas. O Clayton (Fabio Testi) que dá o nome ao título é um condenado à forca a quem é dada uma segunda oportunidade. Para se livrar da morte certa, os proprietários dos caminhos de ferro pagam-lhe 1500 dólares e dão-lhe liberdade se ele matar um agricultor (Warren Oates, uma vez mais), que no passado tinha sido um pistoleiro às ordens dos caminhos de ferro.

O problema é que quando Clayton chega a casa do seu alvo, acaba por se tornar amigo dele e apaixona-se pela mulher, não cumprindo o seu objectivo, deixando-os livres. Mas assim que o agricultor descobre que foi traído o filme dá uma reviravolta e começa a perseguição de Clayton que só termina num final feliz em que apenas estas três personagens acabam vivas.

Pelo meio temos um Clayton, interpretado por um actor com um bom historial neste género, que tem um sotaque italiano carregadíssimo, duelos em que paus de dinamite furam cortinados deixando lá a marca perfeita, cenas de amor de um erotismo de bradar aos céus e até um cameo de Sam Peckinpah. Conclusão: «Clayton, o Cavaleiro da Noite» é daqueles filmes tão maus, tão maus, que acabamos por gostar um bocadinho deles. Quanto mais não seja para podermos dizer: eu vi um western spaghetti de boas intenções...e gostei.

Nota: 3/5

Site do filme no IMDB

Em Cartaz: Semana 26/11/2009

Capitalismo: Uma História de Amor, de Michael Moore
Lua Nova, de Chris Weitz

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Museu Chaplin abre portas em 2011

A mansão suíça de Charlie Chaplin, onde o actor e realizador se exilou nos últimos anos de vida, vai tornar-se um museu dedicado à vida daquele que é um dos cineastas mais conhecidos do período mudo, graças à sua criação Charlot. A revelação foi feita por familiares do actor, que prevêem abrir as portas da mansão em 2011.

Localizada em Corsier-sur-Vevey, a mansão foi habitada por Charlie Chaplin após o seu exílio forçado, quando foi expulso dos EUA em 1952 porque as autoridades suspeitavam que o autor de «O Grande Ditador» tinha simpatias comunistas. Com o novo projecto os fãs de Charlot vão poder ver os objectos pessoais de Chaplin e acompanhar a vida e carreira do cineasta por ordem cronológica, desde os primeiros dias no teatro londrino ao auge da sua carreira em Hollywood. Um bom pretexto para visitar a Suíça em 2011.

Tortura, de Alf Sjöberg (1944)

Antes de Ingmar Bergman se aventurar na realização de filmes, foi um grande argumentista. Aliás, muitos dos seus filmes seriam baseados em argumentos da sua autoria. E foi precisamente este «Tortura» em 1944 que marcou a sua estreia na escrita para cinema, dois anos antes de realizar o seu primeiro filme.

«Tortura» é um filme que tem no centro um liceu onde um dos professores é considerado um sádico tirano pelos seus alunos. São poucos os que não têm medo desta figura a quem deram a alcunha de Calígula (Stig Järrel). No seu oposto está um aluno que foi chumbado por não ter estudado a lição. Por sua vez, a fechar o triângulo das personagens principais de «Tortura» está uma rapariga, que trabalha numa tabacaria e se enamora pelo rapaz.

Com o desenrolar do filme vemos que todos têm os seus traumas pessoais e como é complicado ultrapassá-los. Uma das marcas da obra futura de Bergman, que também aqui começou a filmar algumas das cenas. Desde o professor que diz ter problemas com nervos e que o levaram a passar um tempo internado no passado ao estudante que não aguenta a pressão de ter chumbado, passando pela jovem que tem medo de estar sozinha porque alguém vai ter com ela.

Uma das partes mais expressivas de «Tortura» é precisamente o quarto da jovem, onde o jogo de sombras criado por Sjöberg está muito bem feito e faz lembrar a tempos o expressionismo alemão dos anos 1920, nomeadamente quando vemos a sombra de uma mão a aproximar-se da rapariga, numa das cenas. Poderia dizer-se que quase sentimos a presença de Nosferatu, se bem que aqui a sombra não é sobrenatural.

Filmado no final da II Guerra Mundial, «Tortura» foi visto na altura como um filme de oposição ao nazismo. Daí a figura do professor ser visto como uma autoridade demasiado forte dentro da sala, mas que na realidade não o é por dentro devido aos seus problemas psicológicos. Ao mesmo tempo, «Tortura» apresenta de certo modo o ambiente das escolas naquela altura.

Nota: 4/5

Site do filme no IMDB

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Bom cinema de volta à RTP 2

O Cinco Noites Cinco Filmes da RTP 2 deixou muitas saudades aos cinéfilos portugueses e foi uma grande perda para a televisão em Portugal. Mas parece que está de volta. Não sei se é para voltar ou não, mas tanto nesta como na semana passada o segundo canal do Estado passou filmes todos os dias, há hora do antigo programa. Na semana passada foi a vez de filmes como «Outland», «No Limiar da Realidade» ou «Terra da Abundância».

Esta semana começou já com «Harry, o Implacável» e vai prosseguir com «Lolita», «Blow-Up», «Laranja Mecânica» e «THX 1138», o filme de culto de George Lucas. Esperemos que estes ciclos sejam para continuar, pois ver cinema em televisão por cá é cada vez mais complicado. E na 2 sempre temos a vantagem de não sermos incomodados com publicidade.

A Estrada Não Tem Fim, de Monte Hellman (1971)

Na minha tentativa de acompanhar o ciclo que a Cinemateca está a realizar sobre a obra de Monte Hellman, vi hoje «A Estrada Não Tem Fim». E dos quatro filmes que vi até agora consigo chegar a uma conclusão: quando Hellman se aventura por géneros menos populares tem melhores resultados. Se não vejamos. No caso de «Flight To Fury», um série B a dar ares de Noir rodado nas Filipinas, a coisa não saiu bem. Já nos westerns, «O Furacão» cumpre os mínimos, mas não mais que isso.

Mas o caso muda de figura quando os temas são mais marginais. Já o tinha constatado em «Cockfighter», sobre lutas de galos, e ficou hoje provado ao ver este «A Estrada Não Tem Fim». O filme é definido como um road movie, mas na minha opinião não será bem assim. Tal como em «Cockfighter» surge aqui Warren Oates e tal como nesse filme, que é posterior convém referir, há muitas apostas em jogo.

Tudo porque o tema central deste filme são as corridas de carros e um desafio feito por dois jovens à personagem de Warren Oates, que consiste numa corrida pelas estradas perdidas dos EUA até Washington DC, faz alavancar a acção. Há aqui muitos pontos de contacto com a filmografia de Hellman.

As personagens marginais, por exemplo. Warren Oates volta a interpretar um tipo solitário que precisa que lhe dêem atenção. Nem que para isso seja preciso inventar uma história nova a cada pessoa que lhe pede boleia. E são vários os que o fazem. Também é o caso dos jovens que o desafiam, que são acompanhados por uma rapariga que se infiltra no seu carro sem ninguém se chatear. A título de curiosidade, um dos jovens é interpretado por Dennis Wilson, um dos membros dos Beach Boys.

E são também vários os actores que já tinham surgido em outros filmes de Monte Hellman, dando uma perninha na sua representação do mundo das corridas de carros ilegais na América profunda. Quem gosta de carros tem aqui uma boa fita para devorar. Até porque apesar de muitos estarem alterados, como não poderia deixar de ser, não têm nada a ver com o tunning de hoje em dia. Já para não dizer que os carros clássicos norte-americanos são bem mais belos do que os actuais. Basta ver o GTO guiado por Warren Oates.

Nota: 4/5

Site do filme no IMDB

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Spielberg e Stephen King preparam mini-série

E por falar em Steven Spielberg, cujo filme «Apanha-me Se Puderes» acabo de ver, vejo aqui uma notícia que o realizador de «ET» se vai juntar a Stephen King, talvez o escritor com mais obras transpostas para o cinema, para criarem uma mini-série para televisão.

Denominada «Under the Dome», será baseada na mais recente obra do escritor que tem como cenário um resort onde começam a surgir diversos incidentes misteriosos. Nada de novo no universo de King.

Por enquanto ainda não se sabem grande pormenores sobre esta aventura, que será produzida pela Dreamworks TV e segundo a Variety destina-se ao mercado da TV por Cabo. A revista recorda que Spielberg e King já no passado tentaram produzir um filme baseado no livro «The Talisman», mas o projecto nunca avançou por questões de orçamento. Será que é desta? Para já os produtores estão à procura de dois argumentistas.

Apanha-me Se Puderes, de Steven Spielberg (2002)

Em 2002, após os mais negros «Artificial Intelligence» e «Minority Report», Steven Spielberg resolveu filmar a história verídica e mirabolante de Frank Abagnale Jr. (Leonardo DiCaprio), um jovem norte-americano que entre os seus 16 e os 19 anos andou a brincar ao gato e ao rato com o FBI, nomeadamente com o agente Carl Hanratty (Tom Hanks), fazendo-se passar por diversas profissões, desde piloto de avião a advogado ou médico.

O seu objectivo inicial era sacar dinheiro à companhia aérea Pan Am através de cheques falsificados. E conseguiu, arrecadando cerca de 4 milhões de dólares. Mas assim que ia sendo descoberto pelo FBI, tinha de mudar de ocupação e começou a forjar diplomas e outros truques para se esquivar.

Paralelamente temos também neste «Apanha-me Se Puderes» a história de uma família em desagregação, a de Frank, com o pai a perder tudo o que tinha e a mãe a deixá-lo pelo melhor amigo do marido. À medida que o filme vai avançando, apercebemo-nos que a relação entre o jovem e o agente que o persegue se torna quase como pai e filho. Frank procura um pai que nunca teve e Carl persegue um filho que também não teve. Algo que fica bem patente no final do filme, quando o jovem tenta partir, mas o agente sabe que ele irá regressar, pois não tem para onde ir.

Com a acção passada no final dos anos 1960 (o próprio genérico animado remete-nos para aquele imaginário), Spielberg conseguiu aqui mostrar-nos um ambiente bastante semelhante ao que deve ter sido. Dos aviões da Pan Am aos hotéis e casas por onde o jovem aldrabão passa. Aqui a fotografia conseguiu ajudar bastante a meter-nos no filme. Algo que irá acontecer também mais tarde em «Munique», passado nos anos 1970.

«Apanha-me Se Puderes» é um filme agradável, cujas mais de duas horas até passam relativamente bem, e a dupla de protagonistas também está à altura da história. Leonardo DiCaprio parece realmente jovem, apesar de na altura da rodagem ter mais de 10 anos do que a personagem que interpreta, e Tom Hanks é o cumpre o cliché do agente do FBI que segue as regras todas, mas no fundo até tem bom coração. Bem melhor do que na sua prestação em «Terminal de Aeroporto», o filme seguinte de Spielberg em 2004.

Nota: 4/5

Site do filme no IMDB

Banda Sonora: Yellow Submarine, de The Beatles

Uma nova versão de Yellow Submarine em animação digital 3D poderá ser um dos próximos projectos de Robert Zemeckis. O projecto deverá estar concluído em 2012 para coincidir com a realização dos Jogos Olímpicos de Londres e os Beatles sobreviventes, Paul McCartney e Ringo Starr, já estão a ser sondados para aparecerem no remake. É este o pretexto para a banda sonora desta semana.

Tetro, de Francis Ford Coppola (2009)

«Tetro» é magnifico. Só esta frase servia para falar deste soberbo filme de Francis Ford Coppola, a sua última obra de arte. Porque há filmes que nos deixam sem palavras e é difícil falar deles.

Filmado em Buenos Aires, a preto e branco, «Tetro» conta a história de um jovem de 18 anos, Bennie (Alden Ehrenreich a lembrar os primórdios de Leonardo Di Caprio, até na própria fisionomia), que chega à capital argentina para rever o irmão. O irmão é precisamente o Tetro (Vincent Gallo) que dá nome ao filme. Tetro saiu de casa, onde vivia sufocado pela figura do pai, um maestro de renome que sugava a vida de todos à sua volta, incluindo a família. Como exemplo, num diálogo entre o maestro (Klaus Maria Brandauer) e o seu irmão, o primeiro diz-lhe para não usar o apelido da família numa obra que está a preparar porque a considera má.

Mas é na relação entre os dois irmãos que tudo se passa. A saída de casa de Tetro teve como objectivo escrever. E foi através da escrita que resolveu contar a história da sua vida e da sua família, uma vez mais com a figura do pai no centro. Estes textos nunca são publicados, mas a chegada de Bennie, que quer também saber a sua história que ninguém lhe conta, vai mudar tudo, quando este descobre o manuscrito original.

Uma das principais características deste «Tetro» é a utilização do preto e branco. E eu não estou a ver como poderia este filme ser feito, sem ser desta forma. A cor só aparece quando há flashbacks do passado, com pequenos episódios da vida da família Tetrocini no passado, e em cenas de uma peça baseada nos textos de Tetro. E em ambos os casos as cores são demasiado expressivas.

Além desta maravilhosa utilização da cor e do preto e branco há outra grande presença em «Tetro»: as luzes e os espelhos. No primeiro caso há um jogo de luzes que vai percorrendo todo filme, em cenas específicas. Não é por acaso que Tetro é especialista em iluminação num teatro. Já os espelhos também têm uma grande força. É o grande espelho na casa de Tetro que mostra o que nós não podemos ver e são também espelhos que ajudam Bennie a decifrar os textos do irmão.

Por fim e para não me alongar demasiado, uma nota final sobre a interpretação. Na minha opinião, Francis Ford Coppola fez um achado ao escolher Alden Ehrenreich, um jovem com enorme potencial e com muito para evoluir, pois este é apenas o seu segundo papel no cinema depois de algumas participações em séries televisivas. Tal como já referi atrás, fez-me lembrar o Leonardo DiCaprio na sua fase antes de «Titanic». Se continuar assim, prevê-se um futuro brilhante.

Nota: 5/5

Site oficial do filme

domingo, 22 de novembro de 2009

A Verdade e o Medo, de Peter Hyams (2009)

Quatro anos depois da sua última obra, «A Sound of Thunder», Peter Hyams está de volta com «A Verdade e o Medo», um remake do filme «Beyond a Reasonable Doubt», filmado em 1956 por Fritz Lang. Infelizmente não conheço o original, logo não posso fazer a comparação. Apenas sei, lendo a sinopse que se encontra no IMDB, que a história não terá sido muito alterada. Isto sem contar com o factor tempo, que nunca pode ser o mesmo e por vezes é o suficiente para mudar muita coisa.

A história deste «A Verdade e o Medo» é a de um jornalista de investigação de um canal de TV que já teve melhores dias (Jesse Metcalfe), que descobre que um procurador do Ministério Público, interpretado por um Michael Douglas longe do seu melhor, que falsifica provas para resolver os seus casos. A acrescentar a esta ética bastante original, este mesmo procurador está prestes a ser nomeado Governador do Luisiana, sem que ninguém suspeite das suas práticas.

Com base na informação que vai recolhendo, o jornalista resolve ele próprio arranjar maneira de se incriminar a si próprio de um crime que não cometeu, neste caso um assassinato de uma prostituta. Com este esquema a personagem de Jesse Metcalfe pretende não só mostrar a careca do procurador, mas também fazer a reportagem da sua vida e voltar aos seus tempos de glória.

Estamos assim perante um filme que mistura um pouco de várias áreas. Por vezes é um filme de tribunal, outras é um filme sobre jornalismo e também aqui encontramos algumas cenas dignos de um bom filme de suspense. Basta ver uma perseguição nas ruas da cidade ou a tentativa de atropelamento da namorada do jornalista (Amber Tamblyn) num parque de estacionamento.

Além destas cenas mais frenéticas, que estão bem conseguidas, Peter Hyams consegue também fazer um bom uso da sua câmara, sacando uns travellings dignos de nota. Destaque ainda para o final, que não vou revelar, que é um twist muito engraçado, que consegue trocar as voltas todas e dá que pensar. Não só sobre a actividade do procurador mas também do próprio jornalista. Nos dias que correm, há filmes que aparecem na altura certa.

Nota: 3/5

Site oficial do filme

Documentários musicais na Fonoteca de Lisboa

A Fonoteca Municipal de Lisboa vai organizar na próxima semana, entre os dias 24 e 28 de Novembro, uma Mostra de Filmes Documentários dedicados à música. Sempre a partir das 18 horas e com entrada gratuita, este ciclo vai apresentar obras sobre os mais diversos estilos e variantes da música.

Do hip hop de Sam the Kid à música popular das aldeias perdidas de Portugal, passando pelo Fado e por um mítico concerto dado pelos Génesis em 1975 em Cascais, considerado por muitos como um dos primeiros grandes concertos internacionais a passar por território português a seguir ao 25 de Abril. Documentários e música para todos os gostos e feitios a partir de terça-feira.

Mais informações sobre a mostra neste link.

Luzes de Variedades, de Alberto Lattuada e Federico Fellini (1950)

Corria o início da década de 1950 quando Federico Fellini se estreia nas lides da realização, ao fazer dupla com Alberto Lattuada em «Luzes de Variedades». E logo no seu primeiro filme, o autor de «8 e Meio» já apresenta algumas das características que serão a sua imagem de marca: personagens à margem da sociedade, grupos de artistas e uma jovem que sai da sua terra natal em busca do seu sonho.

Neste caso, temos a história de uma companhia de artistas de revista em paralelo com a de uma jovem (Carla Del Poggio) que os vê numa representação feita numa pequena terra e resolve fazer-se à estrada, porque afirma que é esse o seu sonho. E no currículo apresenta já grandes feitos, como ter conseguido dançar 70 horas (só não conseguiu mais porque os outros se cansaram) ou a vitória num concurso de Miss Praia. Ou seja, temos uma jovem ambiciosa, que ao longo do filme acaba por fazer tudo, sem olhar a meios, para ser uma estrela.

Nem que para isso tenha de fazer gato sapato de uma das vedetas da companhia, um brilhante Peppino de Fillippo, que acaba por se apaixonar por ela e fica cego com a paixão (ou ilusão), e colocar a companhia de pantanas, ao criar conflitos entre todos. Seja porque se torna a vedeta por acaso ou porque desfaz o noivado de Peppino, com a futura esposa de Fellini, Guillieta Masina.

Como tinha referido, são muitas as características do cinema de Fellini que já se encontram aqui. Temos uma Roma à noite, belíssima, com os seus habitantes marginais (é aqui que Peppino vai arranjar a sua futura companhia, composta por um vagabundo norte-americano cantor de Jazz, um cowboy saído do asilo, uma brasileira cigana, uma coreógrafa húngara e um maestro russo), os seus cabarets da época e personagens que se fazem à vida. Só ainda falta a fabulosa música de Nino Rotta, mas essa viria mais tarde, quando Fellini se estreou em nome próprio com «O Sheik Branco». Mas o ambiente e a magia já estava lá.

Nota: 5/5

Site do filme no IMDB

sábado, 21 de novembro de 2009

Academia revela pré-candidatos ao Óscar para melhor documentário

Já é conhecida a lista dos 15 documentários pré-seleccionados para o Óscar de melhor documentário, na categoria longa-metragem. Os 15 documentários saíram de uma lista original de 89 filmes, mas apenas cinco serão os nomeados à estatueta mais ambicionada de Hollywood. Uma das surpresas, ou talvez não, foi a não nomeação do agitador Michael Moore, que está prestes a estrear em Portugal o seu mais recente «Capitalismo: Uma História de Amor».

A lista completa é:

«As Praias de Agnès», de Agnès Varda (já estreado em Portugal);
«Burma VJ», de Anders Østergaard;
«Every Little Step», de Adam Del Deo e James D. Stern;
«Facing Ali», de Pete McCormack;
«Garbage Dreams», de Mai Iskander;
«Living in Emergency: Stories of Doctors Without Borders», de Mark Hopkins;
«The Most Dangerous Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers», de Judith Ehrlich e Rick Goldsmith;
«Mugabe and the White African», de Andrew Thompson e Lucy Bailey;
«Sergio», de Greg Barker;
«Soundtrack For a Revolution», de Bill Guttentag e Dan Sturman;
«Under Our Skin», de Andy Abrahams Wilson;
«Valentino, the Last Emperor», de Matt Tyrnauer;
«Which Way Home», de Rebecca Cammisa.

A lista dos cinco nomeados será conhecida a 2 de Fevereiro, quando forem revelados todos os nomeados da 82ª edição dos Óscares, cuja cerimónia de atribuição dos prémios está marcada para 7 de Março.

David Lynch filme documentário sobre guru dos Beatles

O realizador norte-americano David Lynch vai filmar um documentário sobre Maharishi Mahesh Yogi, o guru indiano que integrou algumas sessões de meditação dos Beatles. Segundo a New York Magazine, as filmagens deverão arrancar no próximo mês na Índia.

A admiração de David Lynch pelo mestre da meditação já tinha sido tornada pública há alguns anos, nomeadamente quando lhe dedicou em 2006 o seu livro Em Busca do Grande Peixe, escrito com base nas experiências de meditação transcendental do cineasta.

Um dos objectivos de David Lynch é tentar encontrar um antigo companheiro de Maharishi Mahesh Yogi, que actualmente terá 97 anos. Em declarações à publicação o realizador de «INLAND EMPIRE» refere que o seu objectivo com este encontro é «conseguir histórias que não ficaram bem gravadas».

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Confirma-se: Jardel estreia-se como actor

Já aqui tinha falado da ideia de Mário Jardel, futebolista e antiga estrela do desporto rei por terras lusas, de trocar a bola pelo ecrã. Mas não o grande como disse ao i na semana passada. Ao que tudo indica, Jardel vai protagonizar uma série para televisão e as filmagens arrancaram ontem, perto de Coimbra.

Denominada «Histórias do Bom Jardel» a série é uma comédia e vai ser produzida pela Zed Filmes - Curas e Longas. Quanto ao argumento, conta a história de três amigos de uma pequena vila do interior que para pagarem uma dívida decidem investir no passe do jogador, para o tentarem vender por uma boa maquia.

Contudo o plano não dá funciona e Jardel acaba 'preso' ao clube da vila, refere a sinopse. Ao longo dos 12 episódios previstos, o antigo artilheiro tem tempo para tudo, até para se apaixonar pela mãe de um dos três amigos. A ver vamos o que sairá desta aventura de actor de Mário Jardel, que poderá ainda vir a ser uma longa metragem.