segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Destaques da Cinemateca em Dezembro

Dezembro é mês de Natal e de dois feriados, logo menos dias com a Cinemateca aberta. Mesmo assim não é desculpa para não dar um salto ao Museu do Cinema e ver o que está a passar. Em Dezembro termina o ciclo «Divos às Matinés», que passou durante as tardes de 2009 filmes com os principais actores de sempre, com destaque para Humphrey Bogart, Marlon Brando, Gary Cooper, Clark Gable, Cary Grant, Paul Newman e John Wayne. Este mês os convidados desta rubrica são apenas dois: Spencer Tracy e Robert Redford. Quanto aos principais filmes das tardes de Dezembro na Barata Salgueiro, destaque para «E Tudo o Vento Levou», um grande clássico de Victor Fleming, «O Homem Que Matou Liberty Valance», de John Ford, «Fúria», de Fritz Lang e «A Golpada», de George Roy Hill.

Dezembro marca também o início de um ciclo dedicado à obra de Preston Sturges, um realizador e argumentista que fez história nos anos 1930 e 1940 com grandes comédias. Com este ciclo a Cinemateca vai prestar homenagem ao realizador com uma retrospectiva integral da sua obra.

A homenagem ao realizador Monte Hellman também chega agora ao fim, com a projecção de «Iguana» e dois dos filmes que já tinham passado em Novembro. O ciclo que também chega ao fim é o que nos últimos meses a Cinemateca dedicou a João Bénard da Costa, falecido recentemente. Das últimas obras que integram este ciclo destaque para «Matou!», de Fritz Lang, «O Novo Mundo», de Terrence Mallick ou «Stromboli», de Roberto Rossellini.

Outro dos ciclos que continua em Dezembro é «Os Mil Rostos de Berlim», um ciclo curioso que tem mostrado filmes que têm Berlim como inspiração e que tem juntado obras da ex-RDA a filmes mais recentes do cinema alemão actual. Este mês vão ser projectados diversos filmes, incluindo «As Asas do Desejo», de Wim Wenders.

Quanto a ciclos de um mês só, Dezembro vai trazer uma surpresa para os amantes do Jazz, com uma mostra de filmes onde este género musical está bem representado. E com exemplos de vários pontos do globo: dos EUA de «Sombras», de John Cassavetes ou «Cotton Club», de Francis Ford Coppola, passando pela Lisboa de «Belarmino», de Fernando Lopes e «Noites de Paris», de Martin Ritt.

O cinema português marca presença através do ciclo «O Amor no Cinema Português», que já é um clássico na Cinemateca. Para Dezembro os filmes desta rubrica são: «Dois Dias no Paraíso», de Arthur Duarte», «O Recado», de José Fonseca e Costa, «Terra Fria», de António Campos e «O Capacete Dourado», de Jorge Carmez.

Outra das rubricas bem conhecidas dos espectadores da Cinemateca é a «História Permanente do Cinema», que preenche os sábados. Para Dezembro vão passar obras de Alfred Hitchcock («Os Pássaros»), F. W. Murnau («City Girl»), Claude Chabrol («As Rivais»), John Ford («Ouvem-se Tambores ao Longe»), Tod Browning («Freaks») ou Ernst Lubitsch («A Loucura do Charleston»), entre outros.

Esta rubrica será interrompida no dia 5 de Dezembro, sábado que vem, com uma sessão especial. Trata-se da projecção de «Cinema Falado», um filme realizado pelo cantor brasileiro Caetano Veloso que vai estar presente na Barata Salgueiro para apresentar aquela que é a sua única aventura na Sétima Arte enquanto realizador.

A pedido dos visitantes da Cinemateca, a rubrica «O Que Eu Quero Ver» passa em Dezembro dois filmes: «Fim-de-Semana Atribulado», de Carol Reed e o recente «Control», de Anton Corbijn sobre a vida de Ian Curtis, vocalista dos Joy Division.

Por fim, para os mais novos a «Cinemateca Júnior» apresenta duas propostas de Natal e uma surpresa. As duas propostas de Natal são «Polar Express», de Robert Zemeckis, e «Branca de Neve e os Sete Anões», de Walt Disney e David Hard. A surpresa desta secção é «Maria Antonieta», o último filme de Sofia Coppola.

Mais informações aqui.

Banda Sonora: Walk Away, de Franz Ferdinand

O regresso dos escoceses Franz Ferdinand a Portugal, a primeira vez em nome próprio e após um excelente concerto na última edição do festival Paredes de Coura, é o pretexto para a banda sonora desta semana. A descoberta deste videoclip da música «Walk Away», que nos remete para o imaginário dos filmes Noir, é ideal para mostrar a imagem bastante cuidada com que a banda se mostra e apresenta as suas influências.

domingo, 29 de novembro de 2009

2012, de Roland Emmerich (2009)

O alemão Roland Emmerich gosta de destruir o mundo. Tudo começou em 1996 com «Dia da Independência», um dos primeiros filmes com Will Smith no papel principal. Nesse filme o planeta Terra era invadido por extra-terrestres que destruíram tudo por onde passavam, com a ajuda de umas gigantescas naves espaciais que lançavam uns raios azuis. Em 2004 foi a vez de aproveitar as alterações climáticas para realizar «O Dia Depois de Amanhã» e uma vez mais o mundo sofreu às mãos de Roland Emmerich.

Para 2009 o pretexto é uma profecia da civilização Maia que nos diz que em 2012 uma conjugação celestial vai alinhar os planetas do sistema solar e destruir o planeta, tal como o conhecemos. «2012» é precisamente o nome do mais recente filme do alemão e uma vez mais não podemos esperar mais do que uma sessão de puro entretenimento.

Mas infelizmente não encontramos nestas duas horas e meio mais do que bons efeitos especiais que vão desde rachas a abrirem a Califórnia em milhares de pedaços passando pela destruição da Casa Branca por um porta-aviões ou um tsunami de proporções bíblicas a chegar ao Evereste. Já para não falar da sequência do Bentley a andar na neve. Os exemplos são tantos que o melhor é ver para crer.

O argumento de «2012» é muito pobrezinho, um dos heróis principais não convence (John Cusack no papel de um escritor falhado que tenta levar a família para as arcas que irão salvar os sobreviventes deste fim do mundo) e o facto de não se chegar a perceber bem o que aconteceu e como se resolveu também não ajuda.

No meio desta destruição, há duas personagens que ficam bem na fotografia: um maluquinho das conspirações que só podia ser norte-americano, interpretado por Woody Harrelson, e Danny Glover que encarna o papel de presidente dos EUA, numa figura bastante decalcada de Barack Obama. Tirando o facto de ser negro, este presidente é bastante solidário e prefere estar junto do povo a tentar ajudar quem está a sofrer do que seguir com a sua administração para se salvar.

Felizmente que não cabe a Roland Emmerich decidir o futuro da Humanidade, pois se tal acontecesse estávamos tramados. Como filme, não convence.

Nota: 2/5

Site oficial do filme

Documentário sobre os blur chega às salas de cinema

Os blur, uma das bandas mais importantes da fase brit pop dos anos 1990 a par dos Oasis, vão chegar às salas de cinema a 19 de Janeiro de 2010 graças a um documentário realizado pela dupla 32 (Dylan Southern e Will Lovelace).

De seu nome «No Distance Left To Run», o título de uma das músicas da banda de Damon Albarn, Graham Coxon, Alex James e Dave Rowntree, o documentário foca a reunião da banda no Verão passado, quando o 'exilado' Graham Coxon regressou para uma série de concertos com os seus antigos companheiros, depois de nove anos.

Segundo o site da banda o documentário reúne imagens de arquivo nunca vistas, entrevistas aos membros da banda e a história dos blur desde o início, ainda nos anos 1980 até aos últimos concertos desta mini digressão, que passou pelo mítico festival de Glastonbury e pelo Hyde Park esgotado.

Pelo que conheço da distribuição de filmes por cá, será difícil ver este filme chegar ao nosso circuito comercial. Mas não seria de estranhar que este «No Distance Left To Run» viesse a passar no festival IndieLisboa. Vamos esperar para ver. Entretanto fica o trailer.

Ney Matogrosso presente no Festival de Cinema Luso-Brasileiro da Feira

A cidade de Santa Maria da Feira vai receber entre 6 e 13 de Dezembro a 13ª edição do Festival de Cinema Luso-Brasileiro, que este ano vai contar com a presença do cantor Ney Matogrosso, como convidado especial. A visita do cantor brasileiro enquadra-se num ciclo de homenagem dedicado aos filmes onde participa, como actor ou documentários sobre a sua obra.

Para a edição de 2009 do festival, vão ser projectados 54 filmes dos dois países, sendo que em algumas das sessões vão estar presentes os realizadores e actores. De acordo com a organização, a cargo do Cineclube da Feira, o objectivo do certame é ser «um espaço que procura intensamente contribuir para a reconciliação do público com o cinema português e proporcionar uma maior abertura à entrada do cinema brasileiro no nosso país, afirmando deste modo o cinema que fala a nossa língua».

Além da homenagem a Ney Matogrosso, os destaques do 13º Festival de Cinema Luso-Brasileiro incluem secções específicas dedicadas a Carlos Nader (realizador em foco), Débora Diniz (Documentários) e Gabriel Abrantes e Tiago Pereira (Sangue Novo).

A abertura do certame vai ter lugar no dia 6 com «Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos», de Paulo Halm. Para o encerramento, a escolha da organização foi o documentário «Coração Vagabundo», de Fernando Grostein Andrade, sobre a digressão A Foreign Sound de Caetano Veloso.

Mais informações sobre o evento aqui.

A Mosca, de Kurt Neumann (1958)

«A Mosca» de Kurt Neumann é um dos clássicos da série B dos anos 1950, variante ficção cientifica/terror. A sua popularidade foi tanta na altura, que não só deu lugar a duas sequelas («Return of the Fly», de Edward L. Bernds e «The Curse of the Fly», de Don Sharp) como veio mais tarde a ser alvo de uma revisão por parte de David Cronenberg, filme que ajudou o canadiano a saltar para o mainstream.

Mas voltemos atrás no tempo. Em 1958 nasce «A Mosca», que resulta de uma experiência mal sucedida feita por um cientista (Al Hedison) que inventa um desintegrador-integrador de partículas (foi ele que lhe deu o nome) que permite teletransportar objectos e seres vivos de um compartimento para outro. O problema acontece quando o próprio cientista resolve experimentar a invenção em si próprio e por azar uma mosca entra na máquina ao mesmo tempo que ele. O resultado é uma mosca com cabeça de homem e um homem com cabeça de mosca.

Esta face da história é contada através de um flashback pela esposa do cientista (Patricia Owens) ao irmão do cientista (Vincent Price) e a um polícia, depois de no início esta ter confessado que matou o marido. Não vou contar como, para não estragar a surpresa, mas a cena acontece logo a abrir o filme.

Sem lugar a grandes inovações no género, esta primeira versão de «A Mosca» não deixa de ser um clássico. Foca o tema das experiências que correm mal, numa altura em que o medo do desconhecido, nomeadamente a ameaça comunista, estava em todo o lado, e o facto de ter sido produzido por um grande estúdio (a 20th Century Fox) justifica alguns bons meios utilizados. Não no que diz respeito à caracterização, na altura ainda bastante rudimentar como se pode ver na cabeça do homem mosca, mas já podemos ver alguns efeitos curiosos. A fase da desintegração dos objectos ou seres vivos, por exemplo, está relativamente bem conseguida para a altura, com um bom jogo de luzes, e mesmo na cena em que aparece a mosca com a cabeça de homem, se metermos de parte a inverosimilhança da situação, até escapa.

Nota: 3/5

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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Pedro Costa e João César Monteiro entre os melhores da década

A Cinemateca de Ontário colocou três filmes portugueses, dois de Pedro Costa e um de João César Monteiro, na lista dos melhores filmes desta primeira década do século XXI. A lista foi criada para comemorar os 20 anos da instituição que vai também projectar algumas das obras em 2010, no âmbito de um ciclo denominado «The Best of the Decade: An Alternative View».

Portugal está representado na lista por «Juventude em Marcha» (15ª posição da lista) e «O Quarto de Vanda» (14ª com «Os Respigadores e a Respigadora», de Agnès Varda e «Songs From The Second Floor», de Roy Andersson) e «Vai e Vem», de João César Monteiro (30ª posição com «Longing», de Valeska Grisebach, «Secret Sunshine», de Lee Chang-dong e «Longe do Paraíso», de Todd Haynes). Destes três filmes portugueses, apenas os de Pedro Costa vão integrar o ciclo, o que prova uma vez mais a força que o realizador tem vindo a ganhar internacionalmente.

E é curioso ver que nesta lista, criada a partir de um inquérito feito a mais de 60 especialistas na Sétima Arte, de programadores de festivais a historiadores, os filmes de Pedro Costa ficaram à frente de obras de cineastas conceituados como David Lynch («Mulholand Drive»), David Cronenberg («Uma História de Violência»), Gus van Sant («Elephant» e «Gerry»), Pedro Almodóvar («Fala Com Ela») ou Ingmar Bergman («Saraband»).

Os dez primeiros classificados da lista são:

1 - «Syndromes and a Century», de Apichatpong Weerasethakul;
2 - «Platform», de Jia Zhang-ke;
3 - «Still Life», de Jia Zhang-ke;
4 - «Beau travail», de Claire Denis;
5 - «In the Mood for Love», de Wong Kar-wai;
6 - «Tropical Malady», de Apichatpong Weerasethakul;
7 - «The Death of Mr. Lazarescu», de Cristi Puiu e «Werckmeister Harmonies», de Béla Tarr;
8 - «Éloge de l'amour», de Jean-Luc Godard;
9 - «4 Months, 3 Weeks, 2 Days», de Cristian Mungiu;
10 - «Silent Light», de Carlos Reygadas.

A lista completa encontra-se aqui.

O Milagre em Sant'Anna, de Spike Lee (2008)

O mais recente filme de Spike Lee, ou joint como o nova-iorquino gosta de chamar às suas obras, chega às salas de cinema portuguesas com um ano de atraso. Trata-se de «O Milagre em Sant'Anna», um filme que conta a história de quatro soldados negros durante a II Guerra Mundial, que integravam os chamados 'Buffalo Soldiers', durante a libertação de Itália.

Antes de chegar a território italiano, o filme arranca na Nova Iorque dos anos 1980, quando é cometido um misterioso homicídio por um empregado dos Correios (Laz Alonso, que interpreta o soldado em novo e em velho), que ficamos a saber mais tarde que é um dos soldados que integrou aquela companhia. A história é contada a um jovem jornalista (Joseph Gordon-Levitt, o miúdo da série «O Terceiro Calhau a Contar do Sol») através de flashbacks que nos enviam para a acção propriamente dita.

E nesta acção vemos a forma como os soldados negros eram tratados naquele período, quando ainda vinham longe as lutas pelos direitos civis. Esta faceta encontra-se bastante visível num episódio contado pelos soldados, passado durante a recruta no estado sulista do Luisiana, quando o dono de um café lhes recusa oferecer gelados que ganharam num concurso. Nesse mesmo café encontram-se membros da Policia Militar a guardar prisioneiros alemães (não se percebe bem como foram lá parar), todos brancos, e a comerem gelados.

Não nos podemos esquecer que este é um filme de Spike Lee, um realizador que tem lutado por mostrar a sociedade norte-americana a partir do ponto de vista dos afro-americanos, tirando algumas excepções como «Infiltrado» ou a «Última Hora». Mas este 'ódio', se assim se pode chamar, aos brancos fica um pouco de parte quando um dos soldados afirma que se sente melhor em Itália, onde não é tratado como um estranho devido à cor da sua pele.

Além desta faceta, surgem em paralelo várias histórias que se cruzam, entre as quais a do massacre da aldeia de Sant'Anna. Estas histórias incluem um rapazinho perdido que fica à guarda dos soldados, as lutas entre os resistentes italianos e até a recusa de alguns militares alemães em acatar as ordens dos superiores.

Nas cenas das batalhas, a câmara de Spike Lee está bastante bem, filmando momentos de tensão durante um cerco de uma forma simples e os momentos com mais acção recorrendo à câmara no ombro. Em ambos os casos, o realizador quase que nos leva a sentir o calor da batalha. Mas ainda assim não o suficiente como noutros filmes de guerra recentes que abordam a mesma época histórica.

Pegando numa abordagem diferente dos filmes de guerra tradicionais, em que a história se resume a batalhas famosas e a episódios de quase propaganda, Spike Lee consegue aqui fazer um filme de guerra original, contando-a do lado dos negros. Mas este não é um dos principais filmes do realizador, que na minha opinião filma melhor quando não sai de Nova Iorque.

Nota: 3/5

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Silent Night, Deadly Night III: Better Watch Out, de Monte Hellman (1989)

Na década de 1980 as séries de filmes de terror estavam na moda, atingindo maior popularidade com «Sexta Feira 13» e «Pesadelo em Elm Street». Recentemente os dois vilões destes franchises foram recuperados para um filme em que se enfrentavam, de seu nome «Fred Vs Jason».

A série «Silent Night, Deadly Night», cujo primeiro filme estreou em 1984, foi outra das séries de terror realizadas naquela década e chegou aos cinco episódios com o filme «The Toy Maker» em 1991. Pelo meio houve este terceiro episódio, realizado por Monte Hellman.

A série centra-se em Richard 'Ricky' Caldwell (Bill Moseley), um serial killer que ficou traumatizado com a morte dos pais em criança às mãos de um assassino vestido de Pai Natal. É também com este disfarce que mais tarde Ricky irá matar as suas vítimas. No terceiro episódio, este que nos interessa, o assassino que se julgava morto encontra-se em estado de coma num hospital e um médico (Richard Beymer, que iria mais tarde entrar na série Twin Peaks) resolve fazer experiências ligando-o a uma jovem cega com poderes psíquicos (Samantha Scully), no sentido de estabelecer contacto com Ricky e descobrir o que vai na cabeça dele.

O problema é que o assassino acorda mesmo e começa a carnificina. E se este filme até podia ganhar alguns pontos, até nem está mal feito e tem pormenores bastante bem conseguidos, tem outros que não lembram a ninguém. A começar pelo facto de a figura de Ricky ter o cérebro à mostra, dentro de uma espécie de aquário. E mesmo assim consegue pedir boleia quando foge do hospital sem ninguém o impedir, numa das cenas mais cómicas deste terceiro «Silent Night».

Depois ao longo da sua caminhada, onde tem como objectivo encontrar a jovem que o acordou, vai fazendo mais uma série de vítimas e como seria de esperar, ninguém sai ileso. E é tudo muito pobrezinho, apesar de conseguir pregar pelo menos um grande susto numa das cenas em que Ricky sai disparado de uma porta.

A título de curiosidade, este é também o primeiro filme para cinema em que aparece Laura Harring, que em 2001 fará dupla com Naomi Watts em Mulholand Drive, de David Lynch. Nesta sua estreia coube-lhe o papel da rapariga que mostra os seios, um outro cliché dos filmes desta altura.

Nota: 2/5

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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Entre Inimigos, de Martin Scorcese (2006)

Há filmes que merecem uma segunda oportunidade. Da primeira vez que vi este «Entre Inimigos», de Martin Scorcese, um dos realizadores que mais admiro, fiquei um bocado chateado e odiei o filme. Até tive uma grande discussão com um amigo meu sobre o filme e quando o vi ganhar o Óscar, frente a «Cartas de Iwo Jima» (talvez o mais belo filme de guerra de sempre), ia-me dando uma coisinha má.

Tudo porque gostei bastante do original de Hong Kong que é a base desta obra, de seu nome «Infernal Affairs». E no primeiro visionamento de «Entre Inimigos» deixou-me embasbacado, pois é um universo completamente diferente e não queria acreditar no que tinha acabado de ver.

Até que hoje resolvi tirar a prova dos nove e rever o filme de Scorcese. E constatei que o meu amigo tinha razão, o problema era ter bem fresco o filme original. É que tirando a base da história, «Entre Inimigos» não tem quase nada a ver com o original.

De facto, rever o filme sem me lembrar do outro fez-me ver um grande filme. Não ao nível do Martin Scorcese dos velhos tempos, mas mesmo assim um grande filme. A história é simples: um jovem (Matt Damon) que cresceu na máfia irlandesa de Boston, liderada por um excelente Jack Nicholson, injustamente não nomeado para o Óscar de secundário nesse ano, é colocado na polícia como toupeira. Paralelamente um outro jovem polícia (Leonardo DiCaprio, entretanto tornado o menino bonito de Scorcese) acabado de sair da Academia recebe uma oferta para se infiltrar no grupo mafioso.

É um tema que não é novo para o realizador nova-iorquino, basta recordar o excelente «Tudo Bons Rapazes». E aqui a violência está uma vez mais bem retratada. Estamos perante criminosos que não olham a meios para atingir fins. E estes meios vão desde bater em donos de lojas a cortar mãos, a um nível do mais sádico possível. Aqui temos uma boa prestação de Nicholson, em mais um dos seus papéis de maníaco que ninguém gostaria de conhecer num dia menos bom.

Tirando a polémica do Óscar e sem comparar com «Infernal Affairs», este filme é uma grande obra na filmografia de Scorcese. Teve a sorte de contar com grandes actores (além dos já referidos, «Entre Inimigos» conta com nomes como Alec Baldwin, Martin Sheen, Vera Farmiga e Mark Wahlberg, que muito me surpreendeu e considero que tem sido um actor em crescendo nos últimos anos) e o argumento também está muito bem estruturado.

Porque a história vai para além da questão dos agentes infiltrados. Aborda também seus sentimentos e a evolução das personagens à medida que o filme avança. Ninguém escapa às leis e aos acasos da vida.

No que diz respeito à banda sonora, além da entrada de «Brown Sugar», dos Rolling Stones (banda que já faz parte da carreira de Scorcese, nos minutos iniciais, onde o líder da máfia conta a sua história e como chegou ao topo numa brilhante sequência, há também uma música que fica no ouvido (Shipping up to Boston - The Dropkick Murphys) por juntar um rock de certa forma musculado a música de cariz tradicional irlandesa.

Mas mesmo apesar deste segundo visionamento, continuo a preferir o original de Hong Kong, realizado pela dupla Wai-keung Lau Alan Mak em 2002 e que acabou por ser uma trilogia.

Nota: 4/5

Site oficial do filme

The Spaghetti Western Database

E nas minhas pesquisas sobre o filme anterior, «Clayton, O Cavaleiro da Noite», deparei com este site: The Spaghetti Western Database. Trata-se de um site semelhante ao Internet Movie Database (IMDB) mas apenas dedicados aos filmes deste género. E está lá tudo e pelo que se constata é actualizado com uma certa regularidade. A última entrada é de dia 19 de Novembro.

Dedicado aos fãs dos westerns filmados na Europa, neste site encontram-se criticas, uma história bastante completa do género Spaghetti, noticias e artigos sobre os grandes protagonistas. Uma boa página para quem gosta deste tipo de western, que fez as delicias de muitos nos idos anos 1960 e 1970.

Link para o The Spaghetti Western Database

Clayton, O Cavaleiro da Noite, de Monte Hellman (1978)

«Clayton, o Cavaleiro da Noite» foi uma aventura europeia de Monte Hellman, pelos territórios do Western Spaghetti, numa co-produção italo-espanhola de 1978. E uma vez mais o realizador de «Cockfighter» espalha-se ao comprido. Tirando algumas honrosas excepções, nomeadamente a obra de Sergio Leone, os westerns filmados em território europeu não vão ficar para história como obras de qualidade.

Este é também o caso de «Clayton, o Cavaleiro da Noite». Só o nome em português já nos faz dar umas boas gargalhadas. O Clayton (Fabio Testi) que dá o nome ao título é um condenado à forca a quem é dada uma segunda oportunidade. Para se livrar da morte certa, os proprietários dos caminhos de ferro pagam-lhe 1500 dólares e dão-lhe liberdade se ele matar um agricultor (Warren Oates, uma vez mais), que no passado tinha sido um pistoleiro às ordens dos caminhos de ferro.

O problema é que quando Clayton chega a casa do seu alvo, acaba por se tornar amigo dele e apaixona-se pela mulher, não cumprindo o seu objectivo, deixando-os livres. Mas assim que o agricultor descobre que foi traído o filme dá uma reviravolta e começa a perseguição de Clayton que só termina num final feliz em que apenas estas três personagens acabam vivas.

Pelo meio temos um Clayton, interpretado por um actor com um bom historial neste género, que tem um sotaque italiano carregadíssimo, duelos em que paus de dinamite furam cortinados deixando lá a marca perfeita, cenas de amor de um erotismo de bradar aos céus e até um cameo de Sam Peckinpah. Conclusão: «Clayton, o Cavaleiro da Noite» é daqueles filmes tão maus, tão maus, que acabamos por gostar um bocadinho deles. Quanto mais não seja para podermos dizer: eu vi um western spaghetti de boas intenções...e gostei.

Nota: 3/5

Site do filme no IMDB

Em Cartaz: Semana 26/11/2009

Capitalismo: Uma História de Amor, de Michael Moore
Lua Nova, de Chris Weitz

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Museu Chaplin abre portas em 2011

A mansão suíça de Charlie Chaplin, onde o actor e realizador se exilou nos últimos anos de vida, vai tornar-se um museu dedicado à vida daquele que é um dos cineastas mais conhecidos do período mudo, graças à sua criação Charlot. A revelação foi feita por familiares do actor, que prevêem abrir as portas da mansão em 2011.

Localizada em Corsier-sur-Vevey, a mansão foi habitada por Charlie Chaplin após o seu exílio forçado, quando foi expulso dos EUA em 1952 porque as autoridades suspeitavam que o autor de «O Grande Ditador» tinha simpatias comunistas. Com o novo projecto os fãs de Charlot vão poder ver os objectos pessoais de Chaplin e acompanhar a vida e carreira do cineasta por ordem cronológica, desde os primeiros dias no teatro londrino ao auge da sua carreira em Hollywood. Um bom pretexto para visitar a Suíça em 2011.

Tortura, de Alf Sjöberg (1944)

Antes de Ingmar Bergman se aventurar na realização de filmes, foi um grande argumentista. Aliás, muitos dos seus filmes seriam baseados em argumentos da sua autoria. E foi precisamente este «Tortura» em 1944 que marcou a sua estreia na escrita para cinema, dois anos antes de realizar o seu primeiro filme.

«Tortura» é um filme que tem no centro um liceu onde um dos professores é considerado um sádico tirano pelos seus alunos. São poucos os que não têm medo desta figura a quem deram a alcunha de Calígula (Stig Järrel). No seu oposto está um aluno que foi chumbado por não ter estudado a lição. Por sua vez, a fechar o triângulo das personagens principais de «Tortura» está uma rapariga, que trabalha numa tabacaria e se enamora pelo rapaz.

Com o desenrolar do filme vemos que todos têm os seus traumas pessoais e como é complicado ultrapassá-los. Uma das marcas da obra futura de Bergman, que também aqui começou a filmar algumas das cenas. Desde o professor que diz ter problemas com nervos e que o levaram a passar um tempo internado no passado ao estudante que não aguenta a pressão de ter chumbado, passando pela jovem que tem medo de estar sozinha porque alguém vai ter com ela.

Uma das partes mais expressivas de «Tortura» é precisamente o quarto da jovem, onde o jogo de sombras criado por Sjöberg está muito bem feito e faz lembrar a tempos o expressionismo alemão dos anos 1920, nomeadamente quando vemos a sombra de uma mão a aproximar-se da rapariga, numa das cenas. Poderia dizer-se que quase sentimos a presença de Nosferatu, se bem que aqui a sombra não é sobrenatural.

Filmado no final da II Guerra Mundial, «Tortura» foi visto na altura como um filme de oposição ao nazismo. Daí a figura do professor ser visto como uma autoridade demasiado forte dentro da sala, mas que na realidade não o é por dentro devido aos seus problemas psicológicos. Ao mesmo tempo, «Tortura» apresenta de certo modo o ambiente das escolas naquela altura.

Nota: 4/5

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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Bom cinema de volta à RTP 2

O Cinco Noites Cinco Filmes da RTP 2 deixou muitas saudades aos cinéfilos portugueses e foi uma grande perda para a televisão em Portugal. Mas parece que está de volta. Não sei se é para voltar ou não, mas tanto nesta como na semana passada o segundo canal do Estado passou filmes todos os dias, há hora do antigo programa. Na semana passada foi a vez de filmes como «Outland», «No Limiar da Realidade» ou «Terra da Abundância».

Esta semana começou já com «Harry, o Implacável» e vai prosseguir com «Lolita», «Blow-Up», «Laranja Mecânica» e «THX 1138», o filme de culto de George Lucas. Esperemos que estes ciclos sejam para continuar, pois ver cinema em televisão por cá é cada vez mais complicado. E na 2 sempre temos a vantagem de não sermos incomodados com publicidade.

A Estrada Não Tem Fim, de Monte Hellman (1971)

Na minha tentativa de acompanhar o ciclo que a Cinemateca está a realizar sobre a obra de Monte Hellman, vi hoje «A Estrada Não Tem Fim». E dos quatro filmes que vi até agora consigo chegar a uma conclusão: quando Hellman se aventura por géneros menos populares tem melhores resultados. Se não vejamos. No caso de «Flight To Fury», um série B a dar ares de Noir rodado nas Filipinas, a coisa não saiu bem. Já nos westerns, «O Furacão» cumpre os mínimos, mas não mais que isso.

Mas o caso muda de figura quando os temas são mais marginais. Já o tinha constatado em «Cockfighter», sobre lutas de galos, e ficou hoje provado ao ver este «A Estrada Não Tem Fim». O filme é definido como um road movie, mas na minha opinião não será bem assim. Tal como em «Cockfighter» surge aqui Warren Oates e tal como nesse filme, que é posterior convém referir, há muitas apostas em jogo.

Tudo porque o tema central deste filme são as corridas de carros e um desafio feito por dois jovens à personagem de Warren Oates, que consiste numa corrida pelas estradas perdidas dos EUA até Washington DC, faz alavancar a acção. Há aqui muitos pontos de contacto com a filmografia de Hellman.

As personagens marginais, por exemplo. Warren Oates volta a interpretar um tipo solitário que precisa que lhe dêem atenção. Nem que para isso seja preciso inventar uma história nova a cada pessoa que lhe pede boleia. E são vários os que o fazem. Também é o caso dos jovens que o desafiam, que são acompanhados por uma rapariga que se infiltra no seu carro sem ninguém se chatear. A título de curiosidade, um dos jovens é interpretado por Dennis Wilson, um dos membros dos Beach Boys.

E são também vários os actores que já tinham surgido em outros filmes de Monte Hellman, dando uma perninha na sua representação do mundo das corridas de carros ilegais na América profunda. Quem gosta de carros tem aqui uma boa fita para devorar. Até porque apesar de muitos estarem alterados, como não poderia deixar de ser, não têm nada a ver com o tunning de hoje em dia. Já para não dizer que os carros clássicos norte-americanos são bem mais belos do que os actuais. Basta ver o GTO guiado por Warren Oates.

Nota: 4/5

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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Spielberg e Stephen King preparam mini-série

E por falar em Steven Spielberg, cujo filme «Apanha-me Se Puderes» acabo de ver, vejo aqui uma notícia que o realizador de «ET» se vai juntar a Stephen King, talvez o escritor com mais obras transpostas para o cinema, para criarem uma mini-série para televisão.

Denominada «Under the Dome», será baseada na mais recente obra do escritor que tem como cenário um resort onde começam a surgir diversos incidentes misteriosos. Nada de novo no universo de King.

Por enquanto ainda não se sabem grande pormenores sobre esta aventura, que será produzida pela Dreamworks TV e segundo a Variety destina-se ao mercado da TV por Cabo. A revista recorda que Spielberg e King já no passado tentaram produzir um filme baseado no livro «The Talisman», mas o projecto nunca avançou por questões de orçamento. Será que é desta? Para já os produtores estão à procura de dois argumentistas.

Apanha-me Se Puderes, de Steven Spielberg (2002)

Em 2002, após os mais negros «Artificial Intelligence» e «Minority Report», Steven Spielberg resolveu filmar a história verídica e mirabolante de Frank Abagnale Jr. (Leonardo DiCaprio), um jovem norte-americano que entre os seus 16 e os 19 anos andou a brincar ao gato e ao rato com o FBI, nomeadamente com o agente Carl Hanratty (Tom Hanks), fazendo-se passar por diversas profissões, desde piloto de avião a advogado ou médico.

O seu objectivo inicial era sacar dinheiro à companhia aérea Pan Am através de cheques falsificados. E conseguiu, arrecadando cerca de 4 milhões de dólares. Mas assim que ia sendo descoberto pelo FBI, tinha de mudar de ocupação e começou a forjar diplomas e outros truques para se esquivar.

Paralelamente temos também neste «Apanha-me Se Puderes» a história de uma família em desagregação, a de Frank, com o pai a perder tudo o que tinha e a mãe a deixá-lo pelo melhor amigo do marido. À medida que o filme vai avançando, apercebemo-nos que a relação entre o jovem e o agente que o persegue se torna quase como pai e filho. Frank procura um pai que nunca teve e Carl persegue um filho que também não teve. Algo que fica bem patente no final do filme, quando o jovem tenta partir, mas o agente sabe que ele irá regressar, pois não tem para onde ir.

Com a acção passada no final dos anos 1960 (o próprio genérico animado remete-nos para aquele imaginário), Spielberg conseguiu aqui mostrar-nos um ambiente bastante semelhante ao que deve ter sido. Dos aviões da Pan Am aos hotéis e casas por onde o jovem aldrabão passa. Aqui a fotografia conseguiu ajudar bastante a meter-nos no filme. Algo que irá acontecer também mais tarde em «Munique», passado nos anos 1970.

«Apanha-me Se Puderes» é um filme agradável, cujas mais de duas horas até passam relativamente bem, e a dupla de protagonistas também está à altura da história. Leonardo DiCaprio parece realmente jovem, apesar de na altura da rodagem ter mais de 10 anos do que a personagem que interpreta, e Tom Hanks é o cumpre o cliché do agente do FBI que segue as regras todas, mas no fundo até tem bom coração. Bem melhor do que na sua prestação em «Terminal de Aeroporto», o filme seguinte de Spielberg em 2004.

Nota: 4/5

Site do filme no IMDB

Banda Sonora: Yellow Submarine, de The Beatles

Uma nova versão de Yellow Submarine em animação digital 3D poderá ser um dos próximos projectos de Robert Zemeckis. O projecto deverá estar concluído em 2012 para coincidir com a realização dos Jogos Olímpicos de Londres e os Beatles sobreviventes, Paul McCartney e Ringo Starr, já estão a ser sondados para aparecerem no remake. É este o pretexto para a banda sonora desta semana.