domingo, 15 de maio de 2011

IndieLisboa 2011: Post Mortem, de Pablo Larraín (2010)

Outro dos filmes que também me despertava algum interesse na edição deste ano do Indie era «Post Mortem», filme do chileno Pablo Larraín que sucede ao arrepiante «Tony Manero». Mas ao contrário de «Neds», que confirmou as expectativas em relação a Peter Mullan, «Post Mortem» acabou por ser uma das desilusões do festival. Tal como em «Tony Manero», o novo filme de Larraín volta a tocar nas feridas da ditadura de Pinochet e conta com o mesmo actor principal, Alfredo Castro, que interpreta o papel de Mario, o funcionário de uma morgue cujo trabalho consiste em transcrever os relatórios ditados pelo médico legista.

A acção decorre durante os dias anteriores e posteriores à morte de Salvador Allende e relata a descida do Chile aos infernos naquele período. Uma vez mais a personagem interpretada por Alfredo Castro é o espelho desse tempo, numa sociedade sem grande esperança, onde a violência da ditadura não faz reféns. O amontoar de corpos na morgue onde Mario trabalha é bem sinal disso.

Apesar de uma boa reconstituição de época e de ter como personagem principal alguém com problemas em adaptar-se à sociedade, como já acontecia em «Tony Manero», este filme não consegue cativar tanto como o anterior. O grande problema é a história paralela com a vizinha de Mario, que aparentemente morreu, mas volta para falar com ele, que não pega. O facto de ser um filme mais lento e desesperante do que a anterior obra de Larraín, também não ajuda. Mesmo assim, penso que é um filme a precisar de um segundo visionamento, pois tem vários níveis de leitura que podem ter escapado desta vez.

Nota: 3/5

Site oficial do filme

IndieLisboa 2011: Neds, de Peter Mullan (2010)

«Neds», a mais recente longa metragem realizada pelo actor escocês Peter Mullan, era um dos filmes mais aguardados desta edição do Indie. Tudo por causa do anterior «As Irmãs de Maria Madalena», um outro grande filme da sua autoria que foi estreado em 2002. E valeu a pena esperar, pois foi dos melhores filmes do festival. Tal como neste filme, que conta a história de três raparigas nos anos 1960 que vão parar a um convento na Irlanda para expiarem os seus pecados, «Neds» também remete para um passado recente nas ilhas britânicas, centrando-se num jovem de classe baixa, John McGill (Conor McCarron), que tudo faz para ser aceite na escola e pelos de classe superior, mas a sociedade não ajuda.

Em casa o panorama não é muito diferente, pois o seu irmão mais velho vive sempre metido em sarilhos e o pai alcoólico passa a vida a bater na mãe levam-no a procurar refúgio num gangue de jovens delinquentes. Aos poucos o miúdo promissor, com boas notas, começa a tornar-se num jovem violento. «Neds» não é um filme fácil de se ver, pois é um valente murro no estômago e é demasiado violento.

Mas é um grande filme, que pode ser inserido dentro do género conhecido como realismo britânico, que recriou bastante bem a época em que decorre a acção, desde a música aos cenários, e mesmo a fotografia ajuda a fazermos esta viagem ao passado, que segundo o realizador é bastante pessoal, mas não autobiográfica. Outro dos grandes destaques de «Neds» é que conseguiu arrancar excelentes interpretações, como é o caso do estreante Conor McCarron. O próprio Peter Mullan também participa, interpretando o pai de John, e é também uma interpretação notável. Se este filme chegar a estrear, está comprado pela Zon Lusomundo, será sem dúvida um dos melhores filmes a passar pelas salas portuguesas este ano.

Nota: 4/5

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IndieLisboa 2011: Lemmy, de Greg Olliver e Wes Orshoski (2010)

Quem é Lemmy Kilmister? A primeira vez que conheci a personagem foi quando vi um videoclip da banda Probot, um dos projectos de Dave Grohl, que infelizmente não é abordado no documentário feito pela dupla Greg Olliver e Wes Orshoski sobre aquele que é conhecido como um dos padrinhos do heavy metal, género que não é dos meus preferidos. Na altura confesso que não fiquei com grande impressão em relação a Lemmy, que mais parecia uma personagem saída do universo dos Feios, Porcos e Maus. Não podia estar mais enganado quando comecei a prestar mais atenção à obra do líder dos Motorhead, uma das melhores bandas de hard rock de sempre, que tive oportunidade de constatar quando passaram por Portugal no ano passado.

«Lemmy» apenas me veio dar mais razões para gostar do baixista dos Motorhead, pois relata a sua vida e alguns dos projectos onde esteve envolvido e a influência que teve em gente como os Metallica, Henry Rollins, Slash, Jarvis Cocker, Marky Ramone, entre muitos outros. Um dos aspectos mais interessantes do documentário sobre esta autêntica lenda viva é o facto de ser contado na primeira pessoa. Durante grande parte do filme os realizadores acompanham Lemmy nos bares que visita, na sua casa, em programas de rádio, nos concertos com os Motorhead e outras bandas (até de rockabilly!!!), a comprar cds, etc. E é extraordinário quando descobrimos que alguém que considerávamos ser um monstro é afinal uma pessoa normal, com gostos como todos nós, alguns mais excêntricos do que outros, que quando lhe perguntam qual é a melhor coisa que tem em casa (e acreditem, a casa de Lemmy é um autêntico museu de tralha, alguma com muito valor, como a colecção de artigos da II Guerra Mundial) responde que é o filho.

Mas Lemmy Kilmister é uma personagem fantástica de explorar. As histórias que os entrevistados contam sobre ele mostram as razões pelas quais ele é uma influência para muitos quando se fala no rock mais pesado. Além disso, «Lemmy» é também um retrato da sua vida, quais as suas influências (e como o rock and roll pré-Beatles foi tão influente na génese dos Motorhead), os projectos em que participou e porque foi corrido de dois deles, e ainda há espaço para filosofar e histórias sobre os seus tempos de roadie de Jimi Hendrix. «Lemmy» é sobretudo um filme para fãs, que podem contar com algumas boas actuações durante o documentário, mas também é um retrato sobre uma das maiores figuras da cultura popular do século XX, que nunca fez cedências a ninguém. Goste-se ou não.

Nota: 4/5

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IndieLisboa 2011: Morgen, de Marian Crisan (2010)

Se há algo que tenho aprendido nestes anos todos de IndieLisboa é que a Roménia tem uma das melhores cinematografias europeias da actualidade. Mesmo que não seja muito conhecida e apenas tenham estreado por cá os filmes consagrados em festivais de cinema com algum relevo (leia-se Cannes, Veneza e Berlim) é bom saber que o Indie continua a mostrar as obras oriundas daquele país. E a colheita deste ano foi esteve uma vez mais à altura das expectativas.

«Morgen», de Marian Crisan, enquadra-se bem nas obras que têm vindo da Roménia nos últimos tempos. Uma história séria que começa aos poucos a roçar o absurdo. E a história é a de Nelu Manchiu (András Hatházi), segurança de supermercado que vive pacatamente perto da fronteira com a Hungria e que gosta das suas pescarias em território húngaro. Numa das pescarias encontra Behran (Yilmaz Yalcin), um imigrante turco que quer atravessar a fronteira para ir para a Alemanha ter com o filho. Nelu resolve então ajudar o pobre homem, apesar de os dois não se entenderem, e começam as desventuras para levar Behran para a Fortaleza Europa.

Com esta história Marian Crisan explora um tema forte e na ordem do dia (por exemplo, foi o terceiro filme do Indie 2011 a abordar a questão da imigração ilegal) de uma força que roça o absurdo. A impossibilidade das personagens conseguirem comunicar com o turco faz com que algumas cenas pareçam saídas de um filme de Chaplin. O facto de Nelu também ser um homem de poucas palavras ajuda à comparação.
Outra das comparações que pode ser feita, no domínio do absurdo quando se fala de coisas sérias, é com «A Morte do Senhor Lazarescu», filme de Cristi Puiu, apesar deste ser mais pesado do que «Morgen».

A primeira longa metragem de Marian Crisan é também a história de um homem que resolve ajudar alguém que precisa, indo contra tudo e contra todos, sem pensar em grandes consequências e correndo mesmo o risco de infringir a lei. Apesar de não ter vencido o prémio principal, ao ter conquistado o prémio de distribuição é uma boa notícia, pois aumentam as probabilidades de um dia o filme poder chegar às salas portuguesas.

Nota: 4/5

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IndieLisboa 2011: Simon Werner A Disparu..., de Fabrice Gobert (2010)

Quando «Simon Werner A Disparu...» começa, parece que estamos num filme de terror adolescente norte-americano. Mas não é. Tudo começa numa festa, com música em altos berros, quando dois jovens resolvem sair. Passado pouco tempo, numa floresta, descobrem um cadáver. O filme recua então para duas semanas atrás e descobrimos que os jovens são colegas de escola e há um dos seus amigos que não aparece nas aulas, precisamente o Simon Werner do título. O resto do filme encontra-se dividido em sequências centradas em alguns dos jovens, que nos vão dando uma perspectiva sobre a história, a partir do que vê cada um deles, até sabermos o que aconteceu realmente a Simon Werner.

A partir daqui já «Simon Werner A Disparu...» se tornou um filme de mistério, onde começam a surgir as suspeitas sobre o sucedido a Simon Werner. Será que fugiu ou foi raptado? Neste caso quem será o responsável? As suspeitas de rapto aumentam quando desaparecem outros colegas. O final acaba por ser de certa forma óbvio, apenas serve para desenrolar algumas pontas soltas do argumento. Mas não deixa de ser curioso e bem conseguido.

Bem filmado, com uma banda sonora fabulosa, com músicas dos Sonic Youth (nunca as músicas da banda norte-americana se adequou tanto a um filme deste género) que conseguem captar bem a essência da época retratada, o início dos anos 1990, esta é uma boa estreia de Fabrice Gobert, que apenas tinha realizado séries para televisão em França, país de origem do realizador. No elenco também surgem bons valores, que poderão indicar que o cinema francês, que nem sempre salta de fronteiras do país, tem bons tesouros para descobrir.

Nota: 4/5

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IndieLisboa 2011: La BM du Seigneur, de Jean-Charles Hue (2010)

Conhecidos que são os vencedores da edição deste ano do IndieLisboa, é tempo de continuar a revisão da matéria dada. Dos quatro filmes da competição internacional, o terceiro visionado foi «La BM du Seigneur», que recebeu uma menção honrosa. Filmado com poucos meios e com actores amadores, o filme relata a história de um delinquente que pertence a uma comunidade francesa de ciganos e depois de um encontro com algo do outro mundo, que crê ser Deus, resolve mudar de vida. Mas esta mudança de hábitos não cai bem junto da comunidade, que começa a ostracizá-lo em alguns casos.

O facto de recorrer a membros da comunidade como actores, alguns pertencem mesmo à família de Jean-Charles Hue, torna «La BM du Seigneur» um filme que se aproxima bastante da realidade daquela região, quase como um documentário sobre aquela comunidade, mas ficcionado. O filme retrata os problemas que os habitantes da região enfrentam, os crimes que cometem, a própria forma como vivem e as suas tradições. Para muitos o crime é uma forma de vida e quando alguém muda de repente, é gozado à força toda.

Apesar de ter alguns bons planos e pelo menos uma boa interpretação, a do actor principal, que consegue estar à altura do desafio e representar bem os dilemas da personagem que encarna, «La BM du Seigneur» nunca consegue sair da monotonia. Mas não deixa de ser um filme curioso, com alguns bons achados.

Nota: 3/5

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IndieLisboa 2011: Palmarés

«The Ballad of Genesis and Lady Jaye», de Marir Losier, foi o vencedor do Grande Prémio de Longa Metragem «Cidade de Lisboa» da edição de 2011 do festival IndieLisboa. O galardão para Melhor Longa Metragem Portuguesa foi para «Linha Vermelha», de José Filipe Costa.

Estes são os premiados:

Grande Prémio de Longa Metragem «Cidade de Lisboa»
«The Ballad of Genesis and Lady Jaye», de Marir Losier

Grande Prémio de Longa Metragem «Cidade de Lisboa» - Menção Honrosa
«La BM du Seigneur», de Jean-Charles Hue

Melhor Longa-Metragem Portuguesa
«Linha Vermelha», de José Filipe Costa

Prémio de Distribuição
«Morgen», de Marian Crisan

Grande Prémio para Curta-Metragem
«The Story of Elfranko Wessels», de Erik Moskowtiz e Armanda Trager

Grande Prémio para Curta-Metragem - Menção Honrosa
«Diane Wellington», de Arnaud des Pallières

Grande Prémio para Curta-Metragem - Menção Honrosa
«La Fôret», de Lionel Rupp

Grande Prémio para Curta-Metragem - Menção Honrosa
«The Painting Sellers», de Juho Kuosmanen

Prémio para Melhor Curta-Metragem Portuguesa
«Alvorada Vermelha», de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata

Prémio para Melhor Realizador Português de Curta-Metragem (ex aequo)
Gabriel Abrantes, por «Liberdade»
Marco Martins e Filipa César, por «Insert»

Prémio Novo Talento
Patrick Mendes, por «Homenagem a Quem Não Tem Onde Cair Morto»

Prémio Pulsar do Mundo
«I Will Forget Ths Day», de Alina Rudnitskaya

Prémio Pulsar do Mundo - Menção Honrosa
«Pallazo Dele Aquile, de Stefano Savona, Alessia Porto e Ester Sparatore

Prémio para Melhor Longa Metragem Portuguesa de Ficção
«O Que Há de Novo no Amor?», de Hugo Martins, Hugo Alves, Mónica Santana Baptista, Patrícia Raposo, Rui Santos e Tiago Nunes

Prémio para Melhor Documentário de Longa Metragem Português
«Eden, de Daniel Blaufuks

Prémio RTP2 Onda Curta
«Diane Wellington», de Arnaud des Pallières
«How To Pick Berries», de Elina Talvensaari
«I Don't Blame The Beautiful Game», de Christopher Arcella
«Nuit Blanche», de Samuel Tilman

Prémio Signis - Árvore da Vida
«La Ilusión Te Queda», de Márcio Laranjeira e Francisco Lezama

Prémio Signis - Árvore da Vida - Menção Honrosa
«Swans», de Hugo Vieira da Silva

Prémio Signis - Árvore da Vida - Menção Honrosa
«Os Milionários», de Mário Gajo de Carvalho

Prémio de Melhor Imagem para Longa Metragem Portuguesa
Carlos Lopes "Cácá", por «América»

Prémio de Melhor Imagem para Longa Metragem Portuguesa - Menção Honrosa
Luís Branquinho, por «O Barão»

Prémio de Melhor Imagem para Curta-Metragem Portuguesa
Takashi Sugimoto, por «Wakasa»

Prémio Amnistia Internacional
«Cleveland Contre Wall Street», de Jean-Stéphane Bron

Prémio Amnistia Internacional - Menção Honrosa
«I Will Forget This Day», de Alina Rudnitskaya

Prémio do Público - Melhor Longa Metragem
«Cleveland Contre Wall Street», de Jean-Stéphane Bron

Prémio do Público - Melhor Curta-Metragem
«Paris Shangai». de Thomas Cailley

Prémio Melhor Filme Indiejúnior
«My Good Enemy», de Oliver Ussing

Prémio Melhor Filme Indiejúnior - Menção Honrosa
«Les Maisn En L'air», de Romain Goupil

Prémio Melhor Filme Indiejúnior - Menção Honrosa
«Cul de Bouteille», de Jean-Claude Rozec

Prémio do Público Indiejúnior
«Things You'd Better Not Mix Up», de Joost Lieuwma

sábado, 14 de maio de 2011

IndieLisboa 2011: Viagem a Portugal, de Sérgio Tréfaut (2011)

Quando as expectativas estão em alta, o mais certo é apanharmos uma grande desilusão. Foi o que me aconteceu com «Viagem a Portugal», a estreia de Sérgio Tréfaut no domínio da ficção. Baseado numa história verídica, o filme é assumidamente político e tem como objectivo alertar para o que se passa nas fronteiras da Fortaleza Europa, terra de sonhos para muitos, mas que acabam por ficar retidos à porta, muitas vezes por questões de burocracia. É o que acontece a Maria (Maria de Medeiros), uma médica ucraniana que chega a Portugal no último dia do ano para passar alguns dias com o marido, um senegalês, também médico de formação, que trabalha nas obras da Expo 98. O casal mal sabia que esta viagem iria acabar numa 'aventura' digna de um livro de Kafka, com Maria presa no aeroporto de Faro, sem que ninguém consiga perceber bem porquê.

Com uma bela fotografia, a preto e branco, «Viagem a Portugal» consegue ter boas interpretações, sobretudo nos casos de Maria de Medeiros e Isabel Ruth, que interpreta uma inspectora do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras bastante severa. Tirando isso, o grande problema do filme de Sérgio Tréfaut é que acaba por ser um filme altamente maniqueísta, onde os bons são muito bons e os maus são muito maus, e as personagens mais não são do que caricaturas de uma realidade, que infelizmente existe e se encontra escondida do grande público. Como alerta para esta situação, funciona. Como filme, fica aquém do esperado.

Nota: 3/5

IndieLisboa 2011: Gravity Was Everywhere Back Then, de Brent Green (2010)

Até agora «Gravity Was Everywhere Back Then», do norte-americano Brent Green, foi o filme que mais gostei de ver na edição deste ano do IndieLisboa. O filme é daquelas pérolas que nós nem sequer sabíamos que existem e é uma enorme surpresa quando as vemos. Mas também é daqueles filmes que se gosta ou não se gosta. Na sessão a que assisti várias pessoas abandonaram a sala. Filmado em stop motion (o currículo de Brent Green no cinema resume-se a umas quantas experiências no universo da animação, daí o recurso a esta técnica) e no quintal do realizador, com a ajuda dos amigos, «Gravity Was Everywhere Back Then» ficciona a história verídica de Leonard Wood, que resolveu criar uma casa para tentar curar a sua esposa, quando o casal descobriu que ela tinha cancro. O filme relata a aproximação do casal, a forma como se conhecem, num dos mais estranhos acidentes de automóvel de sempre, a sua história de amor e o período da doença da esposa de Leonard.

Com cenários bastante artesanais, criados por Brent Green, o filme é simplesmente fantástico e narra uma das mais belas histórias de amor que vi nos últimos tempos no cinema. Além desta bela história de amor, o narrador do filme (uma vez mais, o próprio realizador) aproveita para fazer diversos apartes bastante emotivos e por vezes irónicos onde filosofa sobre a vida, o amor e deus. São filmes destes, que parecem tão simples, mas devem ter dado um enorme trabalho a fazer, que nos fazem acreditar que às vezes só é preciso vontade e paixão para fazer um filme, que no fundo é uma bela obra de arte e demonstra um enorme amor pela arte. E «Gravity Was Everywhere Back Then» é um daqueles objectos cheios de tudo isso. E deixa-nos sem palavras, se nos deixarmos ir.

Nota: 5/5

Site do filme

Gravity Was Everywhere Back Then from Brent Green on Vimeo.

IndieLisboa 2011: A Little Closer, de Matthew Petock (2011)

«A Little Closer» é mais um exemplo do cinema americano independente mais normal que tem passado pelo IndieLisboa: uma história simples, boas interpretações, mas pouco mais do que isso. A estreia de Mathew Petock até tem alguns pontos de contacto com o vencedor da edição do ano passado, «Vão-me Buscar Alecrim», dos irmãos Ben Safdie e Joshua Safdie, nomeadamente por retratar uma relação familiar com dois filhos. Uma das diferenças é que o adulto neste caso é uma mãe solteira com pouco tempo para cuidar dos filhos e não um pai com pouco jeito para tomar conta dos seus filhos, como era o Lenny do filme dos Safdie.

Outra das diferenças é que «A Little Closer» se centra na vida das três personagens e a sua procura por algo melhor. A mãe Sheryl (Sayra Player), que tem um trabalho monótono e o pouco tempo livre que tem passa-o em bailes à procura de alguém para amar; o filho adolescente Stephen (Eric Baskerville) que começa a despertar para a sexualidade; e Marc (Parker Lutz), o filho mais novo, com pouco mais de 10 anos, que tem de frequentar a escola durante as férias de Verão e ao mesmo tempo faz as tropelias normais com o seu grupo de amigos.

Além de uma boa interpretação dos três actores principais, que têm uma excelente empatia e quase que parece uma família a sério, «A Little Closer» não vai mais além do que um filme banal. A história é relativamente básica e pouco nos cativa, pois o próprio evoluir das personagens é mais do que previsível. Os planos demasiado contemplativos também não ajudam muito. O final acaba por se esvair, com as personagens a olharem para outro lado, quem sabe à procura de um futuro melhor.

Nota: 3/5

Site oficial do filme

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Em Cartaz: Semana 12/05/2011

Lourdes, de Jessica Hausner
Águas Mil, de Ivo M. Ferreira
Monsters - Zona Interdita, de Gareth Edwards
Arthur, de Jason Winer
Cliente de Risco, de Brad Furman
Real Desatino, de David Gordon Green
Pina, de Wim Wenders
Sonhos de Dança, de Anne Linsel e Rainer Hoffmann

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Banda Sonora: Ghost Rider, de Suicide

«Ghost Rider», de Suicide - Banda Sonora de «Finisterrae», de Sergio Caballero (2010)

domingo, 8 de maio de 2011

IndieLisboa 2011: Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor, de João Canijo (2011)

«Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor» é um filme curioso. Como o próprio João Canijo, o realizador, referiu na apresentação da sessão de ontem, o filme tem um carácter didáctico e não é mais do que isso. Nesse sentido este documentário acaba por ser uma interessante abordagem ao trabalho daqueles que são a cara mais visível da nossa paixão: os actores e as actrizes. Sem narração, apenas com alguns entre-títulos explicativos, como se se tratassem de capítulos de um manual, o filme mostra os actores a falarem sobre a preparação das personagens do próximo filme de João Canijo, que só muito raramente intervém na discussão.

Quase se pode dizer que as personagens e o argumento final de «Sangue do Meu Sangue», assim se chama o filme de Canijo que deverá chegar às salas ainda este ano, foram criadas pelos próprios actores nestas sessões de discussão, em que todos participam e dão ideias sobre os nomes, como é que as suas personagens reagem em determinada situação ou porque é que têm um determinado comportamento e não outro. Na parte final do filme vemos o nascimento de três cenas do filme, desde a fase de improvisação entre os intervenientes até à própria cena final.

E a forma como o documentário retrata este trabalho dos actores é realmente uma grande lição sobre cinema. O único defeito de «Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor» acaba por ser o facto de ao mostrar aquelas três cenas, se tornar um pouco um spoiler. Mas não é por isso que deixa de ser uma interessante abordagem à forma como são criados os filmes.

Nota: 4/5

IndieLisboa 2011: John Lennon - Love Is All You Need, de Alan Byron (2010)

Foi da secção IndieMusic que veio a minha primeira desilusão na presente edição do IndieLisboa. «John Lennon - Love Is All You Need» é um documentário sobre a vida de John Lennon, realizado no ano em que passaram 30 anos da morte do lendário músico, membros dos geniais Beatles, defensor do pacifismo e personalidade controversa da cultura popular do século XX. O filme é uma quase biografia de Lennon contada por quem viveu de perto com ele, em entrevistas actuais e de arquivo, desde os seus companheiros da banda a um crítico de música, passando pelas suas duas esposas: Cynthia Lennon e Yoko Ono, a artista plástica que para sempre ficou conhecida como a responsável pela separação da banda de Liverpool.

Tirando uma entrevista televisiva feita pelo casal John e Yoko, onde o par aborda a sua relação e Lennon fala sobre a forma como conheceu Ono e explica a forma como vê a arte, o filme pouco acrescenta à história já conhecida de John Lennon. A música em si, mesmo no período dos Beatles, é pouco abordada, as manifestações pacíficas na cama é um assunto mais que analisado, e mesmo a questão da relação entre John e Cynthia acaba por não trazer nada de novo, pois é baseada em imagens de arquivo, já conhecidas. Talvez Cynthia não quisesse voltar a abordar o tema, mas é pena, pois daria uma maior força ao filme.

Nota: 2/5

IndieLisboa 2011: Tabloid, de Errol Morris (2010)

A segunda sessão de ontem foi «Tabloid», documentário realizado por Errol Morris, um dos grandes nomes deste género cinematográfico com pouca projecção em Portugal, onde a sua obra é praticamente desconhecida junto do grande público. Foi também a segunda vez que vi um filme do norte-americano, depois do excelente «Fog of War», que tive oportunidade de ver também no IndieLisboa, logo na primeira edição do festival, e continua a ser um dos melhores filmes que vi nas oito edições do evento.

Ao contrário de «Fog of War», uma enorme lição de História contada por Robert S. McNamara, um antigo Secretário de Defesa dos EUA nas presidências de John Kennedy e Lyndon Johnson, «Tabloid» aborda um tema mais 'leve', se assim se pode dizer. Aqui não são as grandes questões do mundo que interessam, mas as pequenas. O documentário foca a história de Joyce McKinney, ex-Miss Wyoming, que teve os seus 15 minutos de fama no final dos anos 1970 quando decidiu raptar o amor da sua vida: um mórmon com quem tinha namorado mas que desapareceu sem deixar rasto, até que Joyce descobriu, através de um detective privado, que ele tinha ido para Inglaterra. Com a ajuda de um amigo parte então para o Reino Unido onde eventualmente raptou o jovem.

Esta fantástica história, que mais parece saída de um filme, aconteceu mesmo e Joyce acabou presa e alvo de um enorme sucesso durante uns tempos. Em «Tabloid» Errol Morris entrevista a própria Joyce, que mais tarde acabou por se envolver numa outra história rocambolesca, dois jornalistas de tablóides britânicos que 'investigaram' a história na altura, cada um com as suas perspectivas, e um dos intervenientes no plano para raptar do jovem mórmon. Tal como a leitura deste tipo de jornais, o filme é uma peça de entretenimento que aborda este fenómeno da imprensa, que vende mais do que os jornais de referência, na maioria das vezes através de artigos sensacionalistas, como é este o caso. O recurso a imagens e ao tipo de fontes dos tablóides nos entre-títulos e durante as entrevistas é delicioso.

Ao mesmo tempo, é uma perspectiva diferente na obra de Errol Morris, que se tem especializado em temas mais 'sérios' e está a precisar de ser conhecido. Para quando uma retrospectiva desta obra, é a pergunta que gostaríamos de fazer aos responsáveis de festivais e ciclos por esse país fora.

Nota: 4/5

Site do filme no IMDB

Site oficial de Errol Morris (vale a pena dar uma vista de olhos)

IndieLisboa 2011: Finisterrae, de Sergio Caballero (2010)

Que dizer de «Finisterrae», de Sergio Caballero? Tal como foi explicado na apresentação da sessão, este é daqueles filmes que é uma experiência para o espectador e que se gosta ou não se gosta. Não há meio termo. Realizado pelo catalão Sergio Caballero, um dos directores do Festival Sonar, o filme acompanha a saga de dois fantasmas (com os tradicionais lençóis brancos e dois buracos a fazer de olhos) que querem deixar de o ser e pretendem voltar a ter uma vida terrena.

Esta surrealíssima aventura que vamos acompanhando remete-nos para «Honra de Cavalaria», do também catalão Albert Serra, mas em vez de devaneios filosóficos que tinham aquelas personagens representando Dom Quixote e Sancho Pança, em longos planos aborrecidos, estes dois fantasmas, que falam em russo (pormenor delicioso), levam-nos quase para um universo absurdo, mas não menos fantástico. Tem episódios completamente tontos, como quando ambos discutem se um deles continua a ir ao psiquiatra, mas também cenas belas, como o final, que não vou desvendar.

Até ver «Finisterrae» é das melhores surpresas do IndieLisboa 2011 e um dos filmes que irá de certo ficar nas minhas memórias do festival. Mas fica o alerta: é um filme para se ver com a mente bem aberta e para nos deixarmos ir na onda, sem pensar em grandes convenções terrenas, pois este é um objecto bastante estranho.

Nota: 4/5

Site oficial do filme

Belle du jour: Shannyn Sossamon

Shannyn Sossamon, em «Road To Nowhere - Sem Destino», de Monte Hellman

sábado, 7 de maio de 2011

IndieLisboa 2011: América, de João Nuno Pinto (2010)

Para finalizar o primeiro dia de IndieLisboa 2011 a primeira surpresa: «América», a primeira longa-metragem de João Nuno Pinto, realizador oriundo do universo da publicidade. A estreia de João Nuno Pinto baseia-se num conto de Luísa Costa Gomes, «Criação do Mundo», e é uma excelente comédia dramática que aborda a questão da imigração ilegal em Portugal. O nome do filme remete para uma espécie de sonho americano que os imigrantes dos mais diversos pontos do mundo procuram encontrar em Portugal, mas acabam por nunca encontram.

No centro da narrativa está Victor (Fernando Luís), um português que ganha a vida com esquemas, alguns deles envolvendo imigrantes, e Liza (Chulpan Khamatova), uma imigrante de Leste que é a segunda esposa de Victor e está longe de ser feliz no país onde procurou fugir da sua origem. O resto das personagens fazem parte de um universo que inclui os companheiros de esquemas de Victor, cada um de um país estrangeiro, e os imigrantes que procuram ajuda para legalizarem a sua situação. Além de ter uma boa história, apesar de em alguns momentos se tornar previsível e perder o gás, arrisco dizer que «América» poderá vir a ser um dos melhores filmes portugueses dos últimos tempos.

Tecnicamente está muito bem feito. Tem planos bem filmados, um som excelente, uma bela fotografia e interpretações bem conseguidas. Neste campo destaque para Fernando Luís, que tem um grande papel e está à altura, provando que é um dos melhores actores de cinema que temos visto em Portugal. Basta ver os papéis que tem desempenhado nos filmes de João Canijo. Destaque ainda para um bom punhado de secundários, com Raul Solnado à cabeça, naquele que seria a sua última presença no grande ecrã.

O facto de o filme ter sido produzido com alguns meios (o que pode levar a questionar-nos sobre uma das características do Indie: cinema independente) e com fundos de vários países (além de financiamento português, «América» contou com dinheiro do Brasil, Espanha e Rússia) talvez tenha ajudado ao resultado final, bem acima da média do cinema mais comercial que se tem feito nos últimos anos neste canto da Europa. E caso seja bem promovido, tem estreia prevista para o próximo dia 26 de Maio, poderá vir a ter uma boa carreira nas salas. E é uma boa surpresa para quem pensa que o cinema português só tem obras para o umbigo.

Nota: 4/5

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IndieLisboa 2011: A Letter To Elia, de Kent Jones e Martin Scorsese (2010)

«A Letter To Elia» foi outra das sessões escolhidas para o primeiro dia de Indie 2011. Mais um documentário, desta vez realizado por Kent Jones e Martin Scorsese. O filme foi feito para televisão e consiste numa homenagem feita por Scorsese a um dos seus ídolos: o realizador Elia Kazan, um dos grandes nomes da Sétima Arte cuja carreira acabou por ser afectada durante a época da Caça às Bruxas, promovida pelo senador Joseph McCarthy com o intuito de perseguir comunistas nos EUA. Polémicas à parte, que influenciaram e muito a carreira de Kazan, o episódio acaba por não ser central nesta carta ao realizador.

Narrado sempre na primeira pessoa, Scorsese percorre toda a carreira de Kazan, desde que começou a dar os primeiros passos como actor na Broadway, onde fundou o Group Theatre, e mais tarde em Hollywood (podemos ver a participação de um jovem Kazan a contracenar com James Cagney), até chegar à carreira de realizador, assinando grandes filmes a partir do final dos anos 1940 até ao início dos anos 1960. Ao mesmo tempo o realizador nova-iorquino aproveita para contar a influência que estes filmes tiveram no modo como via cinema e a própria vida à sua volta enquanto entrava na adolescência, assim como a influência que teve na sua génese enquanto cineasta.

Além da carreira de Kazan, que é focada através de várias cenas dos seus filmes analisadas por Scorsese, de uma forma bastante apaixonada, o filme aborda ainda o homem por detrás da câmara, com uma grande humanidade que conseguiu passar para os seus filmes, e alguns episódios da sua vida que acabaram também por influenciar alguns dos seus filmes. Mas apesar de ser um retrato apaixonado de um ídolo feito por um fã, «A Letter To Elia» é pouco mais do que isso.

A complementar a sessão foi projectada a curta-metragem experimental «Postface», de Frédéric Moffet, sobre Montgomery Clift, bastante abstracta e que mais parece uma experiência que só o realizador conhece o significado.

Nota: 3/5

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IndieLisboa 2011: Cleveland contre Wall Street, de Jean-Stéphane Bron (2010)

Por estes dias está a decorrer a oitava edição do IndieLisboa e uma vez mais vou tentar acompanhar algumas das sessões e comentá-las no blogue. A minha estreia deste ano foi o documentário «Cleveland contre Wall Street», do realizador suíço Jean-Stéphane Bron. O filme aborda a crise do mercado imobiliário dos EUA, nomeadamente o que sucedeu com os empréstimos do chamado sub-prime (simplificando, é um crédito de risco concedido a pessoas que não têm possibilidades de os pagar) na cidade de Cleveland, uma das primeiras a sofrer na pele as consequências da economia e onde milhares de famílias ficaram sem casa.

Quando rebentou a crise, em 2008, a cidade de Cleveland contratou o advogado Josh Cohen para processar 21 bancos de Wall Street, que consideravam serem os culpados pelo sucedido na localidade. O julgamento nunca chegou a ser realizado, mas o caso foi recuperado neste documentário, onde o julgamento é filmado como se tivesse ocorrido. De realçar que os 'actores' neste caso são as próprias pessoas atingidas pela crise, os advogados eram os advogados que deveriam ter participado no julgamento e até foi constituído um júri para a decisão final.

Apesar de ser um filme curioso que aborda a questão da crise sem cair em grandes explicações, como foi o caso de «Inside Job», centrando-se nas famílias e pessoas que ficam sem casa, «Cleveland Contre Wall Street» não é mais do que um julgamento filmado. E aqui perde muito, pois não consegue cativar quem não tem paciência para ver este tipo de eventos. Ajuda a saber um pouco mais sobre a crise, sobretudo do ponto de vista de quem sofreu com o que aconteceu, mas mesmo assim os esclarecimentos não são muitos. Os advogados questionam as testemunhas consoante os interesses dos seus clientes e o que é certo é que ambos os argumentos utilizados são válidos. É bastante complicado arranjar culpados aqui: foram os bancos que resolveram emprestar dinheiro ao desbarato, apostando em produtos de risco com o fim de obterem lucros, ou foram as pessoas que assinaram os pedidos de empréstimo que sabiam não ter condições para pagar?

É um pau de dois bicos e é uma discussão que dá pano para mangas, pois há comportamentos chocantes e revoltantes de ambos os lados. «Cleveland Contre Wall Street» funciona apenas como uma simples experiência para reflectir sobre o assunto. Quanto muito pode ser visto como complemento ao já referido «Inside Job».

Nota: 3/5

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