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sábado, 18 de junho de 2011

José Saramago no cinema

Faz hoje um ano que faleceu José Saramago, um dos maiores e mais incompreendidos escritores portugueses de sempre, e o único Prémio Nobel da Literatura em língua portuguesa, acontecimento que deixou a Cultura um pouco mais pobre. Por quatro vezes a sua obra foi transposta para o grande ecrã.

Das quatro obras baseadas em livros de José Saramago que foram alvo das objectivas da Sétima Arte, «Ensaio Sobre a Cegueira» é a mais célebre. Realizada em 2008 pelo brasileiro Fernando Meirelles, autor de «Cidade de Deus» e «O Fiel Jardineiro», a adaptação desta visão catastrófica da Humanidade, em que uma misteriosa epidemia torna a população mundial cega e acaba por nos mostrar a natureza do Homem quando perde um dos seus sentidos fundamentais através do olhar da única personagem que vê, conta com um elenco de luxo e de várias nacionalidades (Julianne Moore, Danny Glover, Gale Garcia Bernal ou Alice Braga). Apesar de o tema ser bastante difícil de filmar, senão mesmo impossível devido à própria natureza da obra (no fundo estamos perante um mundo onde as personagens são cegas), Meirelles conseguiu dar uma nova visão da obra de Saramago, uma das mais conhecidas do escritor.

Já antes, em 2000, tinha sido a vez do holandês George Sluizer ter feito uma versão de «Jangada de Pedra», filme que conquistou alguns prémios em festivais de cinema. Nesta história da separação da Península Ibérica do território europeu, rumo aos Açores, uma vez mais surge um elenco internacional, onde se encontram os portugueses Diogo Infante e Ana Padrão.

A mais recente adaptação de uma obra de Saramago ao Cinema foi «Embargo», de António Ferreira («Esquece Tudo o que te Disse»), e baseia-se num conto publicado pelo Nobel em 1978 na colectânea «Objecto Quase». Passado durante uma crise petrolífera, o filme relata as desventuras do inventor de uma tecnologia que promete mudar a indústria do calçado, que é afectado na sua missão devido à falta de gasolina no carro.

Por fim, há ainda uma curta-metragem de animação feita em 2006 pelo galego Juan Pablo Etcheverry, «A Maior Flor do Mundo», onde o próprio José Saramago é uma das personagens que conta a ideia de um livro infantil, contando uma história de um rapaz que fez nascer a maior flor do mundo.

Já no ano passado a relação do escritor com a jornalista espanhola Pilar Del Rio foi o centro de um documentário realizado por Miguel Gonçalves Mendes. Neste documentário o realizador acompanhou o casal durante uma temporada e o resultado foi uma bela homenagem não só à relação de um simples casal apaixonado, mas também da enorme figura de José Saramago. O filme vai ser projectado hoje às 21h30 na Cinemateca, em jeito de homenagem ao primeiro aniversário da morte do escritor e a propósito do lançamento do DVD do filme. A sessão vai contar com a presença de Pilar del Rio e do realizador.

Todos estes filmes são um exemplo de que a obra de Saramago continua para além dos livros, chegando a outras artes. Para recordar o Homem fica a curta-metragem de Pablo Etcheverry, narrada pelo próprio.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Biblioteca Cinematográfica: Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago

O Livro: Três anos antes de ganhar o Prémio Nobel da Literatura, o único para um escritor de língua portuguesa, José Saramago publicou «Ensaio Sobre a Cegueira», uma obra bastante negra sobre a Humanidade. Tudo começa quando um homem perde a visão. De repente todo o mundo vai sucumbindo a uma estranha epidemia de cegueira e as pessoas só vêem em branco. A narrativa segue a mulher de um médico, a única que não foi afectada, e mostra-nos a sobrevivência de uma espécie que perdeu um dos seus sentidos mais importantes. Com descrições bastante fortes e em alguns casos arrepiantes, «Ensaio Sobre a Cegueira» é um dos retratos mais negros da socieade, escrito por um dos melhores escritores portugueses de sempre, que tinha uma forma de escrever bastante peculiar, que gerou ódios e paixões.

O Filme: Apesar das dúvidas do escritor, que nunca gostava muito de dar autorização às adaptações dos seus livros, «Ensaio da Cegueira» acabou por chegar ao Cinema em 2008. Filmado pelo brasileiro Fernando Meirelles e escrito por Don McKellar, a versão cinematográfica teve direito a abertura do Festival de Cannes e reuniu um elenco de certa forma original, com actores originários de diversos países: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Julianne Moore, Danny Glover (EUA), Sandra Oh (Canadá), Gael García Bernal (México) e Alice Braga (Brasil). As próprias filmagens passaram por diversos países do globo, pois uma das condições impostas para a adaptação ir em frente era que o cenário fosse uma cidade irreconhecível. Daí, o filme ter sido filmado no Brasil, Canadá e Uruguai.

O resultado foi um bom filme, tendo em conta que filmar uma história deste tipo seria muito complicado à partida. Como é que seria possível filmar a cegueira. Não sendo tão bom como o original, um dos melhores livros de Saramago, Meirelles esteve à altura da missão e recebeu o aval do escritor, recentemente falecido.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Embargo, de António Ferreira (2010)

Oito anos depois de «Esquece Tudo o que te Disse» António Ferreira regressou às longas metragens com «Embargo». Baseado num conto de José Saramago, o filme segue as desventuras de Nuno (Filipe Costa), o inventor de um digitalizador de pés com o qual acredita irá revolucionar a indústria do calçado e fazer fortuna. Mas um embargo petrolífero e vários azares pelo caminho acabam por deitar por terra as suas ambições e tudo à sua volta se começa a desmoronar, incluindo o emprego numa roulotte de bifanas e a compaixão da família, que começa a ficar farto das suas utopias.

«Embargo» já foi comparado ao universo dos irmãos Coen e a espaços consegue sê-lo, sobretudo no que diz respeito à má sorte que persegue Nuno, a quem tudo parece acontecer, e às grandes personagens secundárias que vão surgindo a espaços, como o maneta que ninguém reparou que é maneta. Mas faltava um pouco mais de espessura ao argumento de Tiago Sousa, para fazer de «Embargo» um dos melhores filmes portugueses deste ano.

Mas também quase pode ser comparado a um western alternativo à portuguesa, sem índios nem cowboys. Não só por alguns cenários que quase se assemelham a paisagens desérticas, neste aspecto a fotografia do filme dá uma boa ajuda a criar esta imagem, como a própria banda sonora se assemelha a algumas músicas que nos remetem para aquele imaginário. Sem ser um filme tão bom como o anterior «Esquece Tudo o que te Disse», o novo filme de António Ferreira prova que é um dos realizadores mais originais que tem aparecido por cá. Só faltou um bocadinho 'assim' para ser um filme melhor.

Nota: 3/5

Site oficial do filme