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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Deus da Carnificina, de Roman Polanski (2011)

«O Deus da Carnificina» é um daqueles exemplos perfeitos de que não vale a pena complicar muito para fazer um grande filme. Em cena apenas quatro actores (e um grupo de garotos) que em menos de hora e meia (79 minutos, para ser mais preciso, é esse o tempo do filme) nos mostram como um grupo de pessoas vai de um estado dito civilizado à mais pura discussão, provando que as aparências iludem. E de que maneira.

Tudo começa quando Zachary se chateia com o colega Ethan, porque este não o quer no grupo de amigos, pega num pau e parte dois dentes de Ethan. O que começa como uma briga de dois miúdos com pouco mais de 10 anos, numa sequência genial que nem sequer precisa de som para nos mostrar o que se passou (quase que poderíamos dizer que parece saída de um filme mudo), transforma-se na cena seguinte num potencial cenário mais pacífico, quando os pais das crianças tentar resolver a questão amigavelmente. Mas aos poucos as discussões começam por ninharias. Primeiro entre os dois casais e às tantas já os membros dos próprios casais estão às turras, vindo ao de cima os podres de problemas que todos julgavam não existir.

Baseado numa peça de teatro (daí a escassez de meios) escrita por Yasmina Reza e com interpretações de luxo dos quatro actores principais (Jodie Foster, John C. Reilly, Kate Winslet e Christoph Waltz), qual deles o melhor, «O Deus da Carnificina» conseguiu ser (mais) um dos grandes filmes estreados no final do ano passado. Mesmo tendo sido realizado por um Roman Polanski em modo de retiro forçado, devido a questões legais, o resultado está à altura da obra do polémico realizador polaco e é um dos filmes que vale mesmo a pena ver por estes dias.

Nota: 5/5

Site do filme no IMDB

Site oficial do filme

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

sábado, 19 de março de 2011

Roman Polanski: Procurado e Desejado, de Marina Zenovich (2008)

Roman Polanski continua a ser hoje em dia um dos grandes nomes do Cinema, com um talento inegável. Mas por detrás deste enorme talento está uma vida bastante polémica e conturbada. Sobrevivente do Holocausto, onde perdeu alguns membros da família, começou a realizar curtas-metragens na Polónia natal durante a década de 1950 e na década de 1960 desponta finalmente quando filma «Repulsa», com uma jovem Catherine Deneuve. A partir deste filme começa a ser reconhecido um pouco por toda a parte e acaba por seguir para os EUA onde prometia vir a iniciar uma grande carreira. Prova disso são filmes como «A Semente do Diabo» ou «Chinatown», os únicos que conseguiu filmar em território norte-americano. A trágica morte da sua esposa Sharon Tate, em avançado estado de gravidez, às mãos da seita de Charles Manson acaba por devastar a sua vida.

A sua estadia nos EUA muda abruptamente em 1977 quando é acusado de violação de uma rapariga de 13 anos. Esta acusação e a iminência de uma condenação levaram o realizador polaco a sair do país, onde ainda hoje não pode entrar. «Roman Polanski: Procurado e Desejado» é um documentário realizado por Marina Zenovich em 2008 sobre o julgamento, com entrevistas a todos os protagonistas no processo, incluindo os advogados e a jovem que esteve no centro do caso. Só não surgem o juiz, que já faleceu, e o próprio Polanski, apesar de surgirem várias imagens de arquivo onde o realizador aborda o assunto.

Sem ser um filme favorável ou contrário aos eventos passados na mansão de Jack Nicholson onde tudo se terá passado, (penso que fica bem clarificado com todos os depoimentos o que se passou durante a sessão fotográfica e não querendo condenar ninguém, penso que o comportamento de Polanski com uma menor naquele caso não terá sido o melhor) o documentário consegue analisar um julgamento bastante surreal, palavra que chega mesmo a ser utilizada por um dos advogados, onde o protagonista acaba por ser o juiz Rittenband, um magistrado com um certo gosto pelo estrelato, não estivesse ele na terra delas.

Paralelamente ao processo que vai decorrendo em tribunal, o filme aborda um pouco da carreira de Polanksi até aquela altura e foca a sua personalidade, o que acaba por ser um trunfo e um atractivo para os fãs do cineasta. Mas este filme pode ser visto não só como o relato de um episódio da cultura popular que fez correr muita tinta na altura (e ainda nos dias de hoje), o que se vê nos enormes batalhões de jornalistas que invadem o julgamento, mas também a forma como funciona (ou não) uma justiça que se não é surreal acaba por ser considerada no mínimo peculiar.

Nota: 4/5

Site do filme no IMDB

domingo, 17 de janeiro de 2010

A Semente do Diabo, de Roman Polanski (1968)

E por falar em filmes sinistros, «A Semente do Diabo» bem pode entrar para este capítulo. Um dos primeiros filmes realizados por Polanski nos EUA, depois de ter feito carreira na Europa, o filma fica também marcado por ter sido feito antes do terrível assassinato da actriz Sharon Tate, na altura esposa do realizador e grávida em estado avançado, às mãos da Família Manson.

«A Semente do Diabo» é também um dos grandes filmes do cineasta polaco, um dos gigantes do cinema ainda vivos e que está a atravessar uma fase complicada na sua vida. Neste filme Rosemary (Mia Farrow) e Guy (John Cassavetes) são um jovem casal que se muda para um apartamento situado num prédio maldito, onde no passado ocorreram acontecimentos relacionados com bruxaria. Curiosamente, o filme foi filmado no edifício Dakota, onde mais tarde iria morar John Lennon e onde acabou por ser assassinado por Mark Chapman.

Pouco ligando a estes pormenores o casal acaba por ir viver para um apartamento de uma antiga inquilina e torna-se amigo de um outro casal mais velho que os apoia e tudo faz para estar junto dos jovens. Até que Rosemary engravida e o caso muda de figura e começam a surgir episódios estranhos envolvendo os vizinhos e o próprio marido, que antes não tinha sucesso e de repente consegue um papel depois de um actor rival ter tido um estranho acidente que o deixa cego.

Aqui Polanski mostra as suas cartas e apresenta-nos algo de que já estávamos habituados: uma personagem feminina presa num apartamento (antes já o tinha feito com Catherine Deneuve em «Repulsa») que começa a delirar e a ter medo de tudo o que a rodeia. E as cenas dos sonhos são brilhantes. Mia Farrow consegue aqui uma grande interpretação. Tão depressa está como uma jovem mulher contente por estar perto de ser mãe, como depois entra em paranóia quando descobre o que se passa ao seu redor.

E depois temos um final desconcertante, em que Rosemary aparentemente se deixa resignar pelo destino que lhe coube. Ficamos sem saber se ela quer aquele filho por ser quem é ou se o quer por ser sua mãe. No fundo é um dos grandes dilemas que fica para a história do cinema.

Nota: 4/5

Site do filme no IMDB