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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Recordações do IndieLisboa: 2004

Dentro de pouco mais de uma semana arranca uma nova edição do IndieLisboa. Ao longo dos últimos anos este foi um evento que me deu a mostrar cinematografias e obras que me marcaram, para o bem o para o mal, e foi uma montra para abrir os meus horizontes cinéfilos. Aproveito os próximos dias para fazer uma contagem decrescente e dar a conhecer alguns filmes que tive oportunidade de ver no festival e mais me marcaram. Alguns chegaram a ter estreia comercial, outros nem por isso e nunca mais ouvi falar. A 'viagem' começa pela primeira edição, em 2004. (nota: vão reparar que nos posts relativos às primeiras edições do festival há menos filmes em destaque do que as mais recentes. Não significa que não tenham passado pelas primeiras edições do festival mais filmes interessantes. Tal deve-se ao facto de apenas recentemente ter aproveitado para ver mais obras, devido a uma maior disponibilidade de tempo)

Depois de uma experiência bastante agradável no Cine-Estúdio 222, pelo menos para quem teve oportunidade de assistir aos excelentes ciclos que por lá passaram no início deste século, a associação Zero em Comportamento resolveu avançar para um festival de cinema independente. Nascia assim o IndieLisboa, cuja primeira edição teve lugar entre 24 de Setembro e 2 de Outubro. Organizada um pouco à pressa, a estreia do festival passou apenas pelo Cinema São Jorge. Nesse ano apenas tivemos direito a duas secções (Observatório e Competição) e um herói independente, nem mais, nem menos do que o 'Pai' dos festivais de cinema independente: Sundance.

Foi nesta edição que travei conhecimento com um dos meus realizadores favoritos (Johnnie To) e com obras de outras latitudes, como o uruguaio Whisky, de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, que mais tarde se iria tornar num daqueles casos surreais que aparentemente só acontecem na distribuição de filmes em Portugal: teve estreia comercial em 2010, seis anos depois de ter sido lançado e com uma passagem pelo IndieLisboa. Outro dos grandes destaques nesta primeira edição foi o filme «The Fog of War: Eleven Lessons from the Life of Robert S. McNamara», uma grande lição de História que me permitiu conhecer um excelente realizador na área do documentário: Errol Morris.


«Breaking News», de Johnnie To - foi com este filme que travei conhecimento com a obra de Johnnie To, realizador que passou a ser presença frequente no IndieLisboa nas edições seguintes do festival e chegou a ser Herói Independente. Esta magnífica sequência inicial é assombrosa e ainda hoje, quando a revejo, não deixa de me surpreender. Incrivelmente, apesar da enorme quantidade de obras que realizou, é um cineasta que nunca teve direito a estreia comercial em Portugal, apesar de alguns dos seus filmes terem sido comprados.


«Whisky», de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll - Uma obra simples, através da qual comecei a olhar com outros olhos o Cinema que se faz na América Latina.


«The Fog of War: Eleven Lessons from the Life of Robert S. McNamara», de Errol Morris - São raros os documentários que me captam a atenção. Este é um deles. Realizado por Errol Morris, nome grande dentro do género, dá voz a uma das personalidades norte-americanas mais fascinantes do século XX, Robert S. McNamara, para nos dar uma enorme lição de História que nos ajuda a compreender alguns acontecimentos marcantes dos EUA no século passado. Uma daquelas obras obrigatórias para quem quer conhecer aquele período. Se procurarem, encontram-no inteiro no YouTube. E vale bem a pena

domingo, 10 de julho de 2011

Eleição 2, de Johnnie To (2006)

(crítica com spoilers para quem não viu o primeiro filme da série)
Dois anos depois dos eventos relatados no primeiro «Eleição», os membros da tríade Wo Shing começam os preparativos para elegerem um novo líder. Durante o período de liderança de Lok (Simon Yam) a tríade prosperou e quando o encontramos desta vez Lok tem um encontro com os seus cinco afilhados onde se prepara para a eleição. Uma vez mais, aqui o centro está nos jogos de bastidores e não na acção propriamente dita, apesar de este elemento estar mais presente do que no primeiro episódio da série.

Depois de afastar Big D no final do primeiro filme, Lok agora tem um novo rival com quem lidar para chegar à reeleição, que não é bem vista. Trata-se de Jimmy (Louis Koo), protegido de um dos anciãos que apesar das ligações à tríade não quer ser gangster, mas antes continuar a ser um homem de negócios na China, onde fez fortuna. Este empresário já tinha sido uma personagem secundária em «Eleição», mas aqui tem todo o protagonismo. Apesar de inicialmente se mostrar relutante em tentar ser eleito, um conjunto de eventos acabam por empurrá-lo para esse caminho.

«Eleição 2» vai um pouco mais longe do que o filme anterior. Aqui há uma maior abordagem a várias questões, desde a lealdade entre os gangsters aos valores tradicionais destes clãs que caminham sempre fora da lei governamental, mas coexistindo. E tem mais cenas que aprofundam a natureza das personagens. A forma como Jimmy vai evoluindo ao longo do filme e começa a adoptar comportamentos um pouco mais sombrios do que os que são esperados de um jovem que apenas quer ser um homem de negócios, fruto das circunstâncias, é um dos pontos fortes do filme. E uma vez mais, a forma como está filmado mostra a mestria de Johnnie To em todo o seu esplendor.

Na altura da estreia este díptico chegou a ser considerado como o equivalente ao «Padrinho» de Hong Kong. Penso que a comparação é um pouco exagerada, apesar dos pontos em comum que as duas sagas possam ter.

Nota: 3/5

Site do filme no IMDB

Eleição, de Johnnie To (2005)

Johnnie To é um daqueles realizadores que não se percebe porque nunca teve direito a uma simples estreia em sala. Com mais de 50 filmes realizados em três décadas de carreira, foi preciso surgir o festival IndieLisboa para merecer algum destaque. Mesmo assim não foi suficiente para que começassem a estrear os seus filmes. O díptico «Eleição», de 2005 e 2006, chegou a estar comprado, mas a distribuidora resolveu lançá-lo em DVD duplo. Mesmo não sendo do melhor que To tem feito, merecia ter uma maior visibilidade.

O primeiro capítulo relata a eleição do novo líder da tríade Wo Shing, uma das mais poderosas de Hong Kong. Apesar de a escolha dos membros do grupo ter incidido em Lok (Simon Yam), um gangster mais calmo e que não levanta muitas ondas, o seu rival Big D (Tony Leung Ka Fai), que fez todos os esforços para tentar comprar os votos que lhe dariam a liderança da tríade, não gosta do resultado e começa uma guerra entre as duas facções. No centro desta guerra está também um bastão, que simboliza a liderança dos Wo Shing, e vai ser procurado pelos dois grupos de gangsters.

Tal como muitos dos filmes de Johnnie To, apesar de serem filmes de gangsters, não são filmes de acção típicos de Hong Kong. E «Eleição» encaixa na perfeição neste género muito próprio do realizador. Quem vier à procura de tiros e cenas de acção com mirabolantes, sai desiludido. Apesar de as haver noutros filmes de To, como no fantástico «Exiled», neste caso não isso não sucede. O enfoque dá-se nos jogos de bastidores e na eliminação de adversários entre os dois rivais, que acaba quase sempre num banho de sangue. Apesar de ser um bom retrato das tríades e das relações entre os diferentes grupos que nascem neste universo, poderia ter ido um bocado mais longe. Mas «Eleição» é um bom filme de um realizador que vale a pena descobrir, para quem não conhece, ou para aprofundar, quem conhece. Sobretudo porque é um dos realizadores contemporâneos que melhores planos consegue apresentar.

Nota: 3/5

Site do filme no IMDB