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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Tamanho Natural, de Luis García Berlanga (1974)

Diz quem sabe que «Tamanho Natural» foi um filme atípico na carreira de Luis García Berlanga, apesar de o realizador espanhol o ter considerado como um dos seus filmes mais pessoais. Não conheço a obra do cineasta a não ser uma comédia (e que grande comédia, bastante recomendável, sobretudo nos dias de hoje com uma tal troika a pairar por aí) chamada «Benvindo, Mister Marshall», por isso é-me difícil julgar esse aspecto. Mas este filme não é uma comédia, apesar de em algumas sequências a vontade rir face ao caricato da situação de repente vem ao de cima.

Tudo começa com Michel (Michel Piccoli) a receber uma grande encomenda vinda do Japão, de algo que apenas sabemos que é um objecto com tamanho real. Assim que a encomenda é aberta, sai de dentro de uma enorme caixa uma boneca de borracha que Michel transforma na sua nova amante. Mas o que começa por ser um aparente fetiche, acaba por se tornar uma obsessão e a vida de Michel transforma-se completamente com esta nova relação, onde nem sequer faltam ciúmes.

Apesar de começar por parecer uma comédia e em alguns casos ser mesmo um filme que roça o surreal, bem ao estilo de Luís Buñuel (se calhar não é à toa que encontramos no grupo de argumentistas o nome de Jean-Claude Carrière, colaborador de Buñuel), «Tamanho Natural» é um filme que vai muito para além da simples história de um homem que se apaixona por uma boneca. Acaba também por ser um filme sobre a obsessão e o amor, pois é isso que acaba por acontecer a Michel, e que o leva no final a tomar a decisão que toma, completamente imprevisível e que nos deixa com um amargo de boca e a pensar como é que ele chegou aquele ponto. Um bom filme, bem diferente do realizador que tive oportunidade de conhecer com «Benvindo, Mister Marshall».

(Nota: não encontrando trailer no YouTube, deixo-vos um pequeno trecho do filme)

Nota: 4/5

Site do filme no IMDB

domingo, 10 de abril de 2011

A Bela de Dia, de Luís Buñuel (1967)

Será «A Bela de Dia» uma história real ou um sonho de Séverine (Catherine Deneuve), a personagem principal deste filme de Luís Buñuel? Não sabemos e reza a lenda que o realizador, um dos maiores mestres do cinema surrealista, nunca chegou a esclarecê-lo. O filme começa com um sonho e acaba num sonho/alucinação da própria Séverine. Pelo meio temos uma história bastante pontilhada de elementos oníricos, onde todos os personagens participam, de uma forma ou de outra, tão ao gosto de Buñuel.

Comecemos pela história. Séverine é uma mulher sexualmente reprimida que acaba por ceder à tentação de ir trabalhar num bordel clandestino, onde se transforma em Belle de Jour, ou Bela de Dia numa tradução literal, porque todas as meninas têm de ter uma alcunha e como ela só pode trabalhar até às 5h da tarde, a Madame Anais (Geneviève Page) pensa que este é o nome ideal. Este trabalho de Séverine acaba por ser fundamental para a sua evolução sexual e é onde surgem os episódios mais caricatos, sobretudo com os fetiches dos clientes da casa de passe. Tudo culmina quando Husson (Michel Piccoli), um amigo do marido de Séverine, descobre o seu segredo e ela acaba por deixar a casa de Madame Anais.

Como muitos filmes de Buñuel, «A Bela de Dia» pode ter inúmeras leituras. Mas no fundo, tudo gira à volta do sexo. Temos a libertação sexual de Séverine, que acaba por nunca ir para a cama com o marido, mas com os clientes atende os pedidos mais estranhos. Veja-se a cena do duque ou o professor submisso. Eventualmente acaba por se apaixonar por um deles e o 'romance' termina mal. Os próprios sonhos de Séverine têm praticamente todos algo a ver com sexo. Temos a personagem de Husson, presença bastante recorrente nos sonhos de Séverine, que apesar de casado frequenta prostitutas.

E como não podia deixar de ser, a crítica volta a estar presente na obra de Buñuel, nomeadamente contra os seus alvos favoritos: a burguesia, meio de onde vem Séverine, personagem que não trabalha o que poderá dar a entender que travou conhecimento com a casa de Madame Anais para ocupar o tempo, e algumas das personagens centrais; e a Igreja, que desta vez surge pouco, mas não deixa de levar a sua bicada quando vemos Séverine a chegar da primeira vez à casa de passe e surge uma cena do passado em que ela, ainda criança, rejeita tomar uma hóstia. Quando se trata de escolher o pecado, ou seja, entrar no misterioso apartamento, Séverine não hesita.

Nota: 4/5

Site do filme no IMDB

Belle du jour: Catherine Deneuve

Catherine Deneuve, em «A Bela de Dia», de Luís Buñuel

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Frase(s) que marcam um filme: O Charme Discreto da Burguesia. de Luís Buñuel

Colonel: Marijuana isn't a drug. Look at what goes on in Vietnam. From the general down to the private, they all smoke.
Mme. Thevenot: As a result, once a week they bomb their own troops.
Colonel: If they bomb their own troops, they must have their reasons.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O Anjo Exterminador, de Luís Buñuel (1962)

Algo de estranho se passa na Rua da Providência. Um grupo de personalidades de classe alta regressa de um espéctaculo musical para jantar e depois de passar um serão prolongado na casa do anfitrião Edmundo Nobile acaba por ficar por lá a dormir. O pior acontece na manhã seguinte, quando descobrem que não conseguem sair da sala onde pernoitaram. E não sabem porquê. Nem nós ficamos a saber, pois «O Anjo Exterminador» não nos dá respostas.

O que não significa que não seja um dos melhores filmes que o Cinema nos deixou. Realizado por Luís Buñuel é um dos expoentes máximos do cineasta espanhol, que uma vez mais leva o absurdo a níveis geniais. Começa logo quando os criados abandonam sem razão aparente a casa, no mesmo momento em que entram os convidados. Depois vemos a troca de ordem dos pratos: primeiro entra o prato principal (que acaba por não entrar) e só depois as entradas. Até chegarmos à tal manhã em que ninguém consegue (ou não quer) sair da sala. Do lado de fora da casa acontece o mesmo. Por razões inexplicáveis ninguém consegue entrar na casa para falar com quem lá está.

Ao mesmo tempo «O Anjo Exterminador» não deixa de ser um excelente retrato dos seres humanos quando se vêem em situações extremas. E claro, não faltam as célebres alfinetadelas de Buñuel a dois dos seus ódios de estimação: a Religião e a Burguesia. A Religião está presente logo no início com o plano que nos mostra que estamos na Rua da Providência. Já dentro de casa são várias as cenas em que o divino se imiscui com o (comportamento) profano. Há promessas para ir a Lourdes em peregrinação com o propósito de comprar uma imagem da Nossa Senhora em borracha lavável (pormenor de humor divinal, diria), imagens de santos nas paredes e até ataques ao padre jesuíta que toma conta das crianças de um dos casais aprisionados, quando o marido diz à esposa que já notou que a sua esposa estava a ser seduzida pelo preceptor dos seus filhos. A Igreja volta a ser atacada no genial final (não conto, pois vale mesmo a pena ver, por muito absurdo que seja).

As criticas à Burguesia estão no próprio comportamento das personagens. A mesquinhez e os ódiozinhos entre alguns, as acusações de que os donos da casa são os responsáveis por estarem ali aprisionados, a forma como tratam um dos convivas que entretanto morreu. Em suma, «O Anjo Exterminador» é uma obra ao absurdo e um dos grandes filmes de sempre, que vale a pena ver e rever. Esta foi a segunda vez que o vi e volto a recomendar vivamente.

Nota: 5/5

Site do filme no IMDB