sábado, 11 de fevereiro de 2012

Tamanho Natural, de Luis García Berlanga (1974)

Diz quem sabe que «Tamanho Natural» foi um filme atípico na carreira de Luis García Berlanga, apesar de o realizador espanhol o ter considerado como um dos seus filmes mais pessoais. Não conheço a obra do cineasta a não ser uma comédia (e que grande comédia, bastante recomendável, sobretudo nos dias de hoje com uma tal troika a pairar por aí) chamada «Benvindo, Mister Marshall», por isso é-me difícil julgar esse aspecto. Mas este filme não é uma comédia, apesar de em algumas sequências a vontade rir face ao caricato da situação de repente vem ao de cima.

Tudo começa com Michel (Michel Piccoli) a receber uma grande encomenda vinda do Japão, de algo que apenas sabemos que é um objecto com tamanho real. Assim que a encomenda é aberta, sai de dentro de uma enorme caixa uma boneca de borracha que Michel transforma na sua nova amante. Mas o que começa por ser um aparente fetiche, acaba por se tornar uma obsessão e a vida de Michel transforma-se completamente com esta nova relação, onde nem sequer faltam ciúmes.

Apesar de começar por parecer uma comédia e em alguns casos ser mesmo um filme que roça o surreal, bem ao estilo de Luís Buñuel (se calhar não é à toa que encontramos no grupo de argumentistas o nome de Jean-Claude Carrière, colaborador de Buñuel), «Tamanho Natural» é um filme que vai muito para além da simples história de um homem que se apaixona por uma boneca. Acaba também por ser um filme sobre a obsessão e o amor, pois é isso que acaba por acontecer a Michel, e que o leva no final a tomar a decisão que toma, completamente imprevisível e que nos deixa com um amargo de boca e a pensar como é que ele chegou aquele ponto. Um bom filme, bem diferente do realizador que tive oportunidade de conhecer com «Benvindo, Mister Marshall».

(Nota: não encontrando trailer no YouTube, deixo-vos um pequeno trecho do filme)

Nota: 4/5

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Masters of Horror: John Carpenter's Cigarette Burns, de John Carpenter (2005)

Há alguns meses atrás acompanhei aqui uma série televisiva chamada «Masters of Horror». Muito resumidamente, este foi um projecto para TV criado em 2005/2006, dividido em duas temporadas, onde grandes realizadores com provas dadas no género do terror foram convidados a filmar episódios com cerca de uma hora. Na altura consegui assistir a todos os filmes da primeira temporada com uma excepção: «Queimaduras de Cigarro», logo o filme de um dos meus realizadores favoritos. Falo do mestre John Carpenter, que assina o episódio mais cinéfilo desta primeira série, tal é a quantidade de referências feitas ao longo do filme.

«Queimaduras de Cigarro» conta-nos a história de Kirby (Norman Reedus), o dono de uma sala de cinema com algumas dívidas para pagar, que aceita procurar a única cópia existente de um filme maldito chamado «Le Fin Absolue du Monde» em troca da quantia que irá servir para pagar o que deve. Apesar da aura misteriosa que rodeia o filme (supostamente só foi projectado uma vez e a sessão terminou tragicamente), e dos avisos que recebe, Kirby resolve levar a sua missão avante até encontrar a dita cópia. Mas não é só a busca que o atormenta, mas também outros aspectos do passado deste caçador de tesouros improvisado.

Este episódio foi o primeiro de dois que Carpenter filmou para a série e foi também o primeiro trabalho a seguir ao desastre (para alguns, pois para mim o filme não é mau de todo) chamado «Fantasmas de Marte». E nota-se a marca do realizador, logo na sequência inicial, com a banda sonora do piano a remeter para os seus títulos mais clássicos. O que vem a seguir é uma bela homenagem ao cinema de terror (e ao ver este filme só tive pena de não conhecer mais o género para conseguir apanhar todas as referências espalhadas) e mesmo à cinefilia levada ao extremo, que consegue ser mais violento do que a maioria dos filmes que passaram nesta primeira temporada, incluindo o muito badalado filme de Takashi Miike, «A Maldição». Não é o melhor episódio desta primeira temporada, mas anda lá perto. E assim chega ao fim a ronda pela série «Masters of Horror», que uma vez mais volto a aconselhar a todos os que se interessam pelo género. Talvez um dia também passe por aqui a segunda temporada.

Nota: 4/5

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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Em Cartaz: Semana 09/02/2012

Star Wars: Episódio I - A Ameaça Fantasma (3D), de George Lucas
Detenção de Risco, de Daniel Espinosa
A Dama de Ferro, de Phyllida Lloyd
O Que Há de Novo no Amor?, de Mónica Santana Baptista, Rui Santos, Hugo Martins, Tiago Nunes, Hugo Alves e Patrícia Raposo
Paixão, de Margarida Gil
Prometo Amar-te, de Michael Sucsy

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Memento, de Christopher Nolan (2000)

Por esta altura Christopher Nolan anda entretido de volta do terceiro e derradeiro capítulo de uma trilogia dedicada a Batman. Nada como voltar atrás no tempo e recuperar um dos filmes de culto da década passada, que deu praticamente a conhecer o nome do realizador. Realizado em 2000 «Memento» foi a segunda longa metragem de Nolan e teve logo direito a duas nomeações para os Óscares: Melhor Argumento Original e Melhor Montagem. São precisamente estes os dois grandes destaques do filme, a par de uma excelente interpretação de Guy Pearce, pois se não fosse a forma como o filme foi editado, talvez o efeito final não fosse o mesmo.

«Memento» conta-nos a história de Leonard Shelby (Guy Pearce) um homem que sofre de uma estranha doença que faz com que não tenha memória de curto prazo. Ou seja, lembra-se de tudo o que lhe aconteceu no passado, até um determinado incidente ter ocorrido na sua vida (a violação e morte da sua esposa), mas a sua memória não consegue fixar o que fez há apenas uns minutos atrás. A lembrança da tragédia faz com que Leonard queira procurar o assassino para vingar a morte da esposa e recorre a um método sui generis: para se lembrar do que tem de fazer tatua o corpo com notas que o ajudam na investigação. A partir daqui, contar mais pormenores da história, é contar demasiado e estragar a surpresa.

E as surpresas são muitas neste filme, apesar de não serem assim tantas como seria de esperar. Como referi lá mais acima, o grande trunfo de «Memento» está na forma como foi editado, que nos dá a sensação de sermos quase o pobre Leonard Shelby à procura das memórias perdidas. De resto a história em si, se fosse contada de forma tradicional, acabaria por ser de certa forma um pouco banal. Vale também pela excelente interpretação de Guy Pearce, bem acompanhado de Joe Pantoliano.

Nota: 4/5

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Banda Sonora: I Put a Spell On You, de Natacha Atlas

«I Put a Spell On You», de Natacha Atlas (original de Screamin' Jay Hawkins) - Banda Sonora de «Intervenção Divina», de Elia Suleiman

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

CINEdrio FC conquista primeira edição da Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty

E terminou esta semana a primeira edição da Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty, com um triunfo para o CINEdrio FC, a equipa da casa. Agora é tempo de arrumar as botas e começar a preparar as equipas para a próxima edição do torneio. Antes disso, estão todos convidados a participar na escolha dos melhores jogadores da competição, bastando para tal seguir este link e votar nos realizadores que acham que devem integrar a melhor equipa de futebolistas realizadores de sempre.

Em Cartaz: Semana 02/02/2012

O Artista, de Michel Hazanavicius
O Grande Milagre, de Ken Kwapis
Crónica, de Josh Trank
Jovem Adulta, de Jason Reitman
Os Marretas, de James Bobin

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Banda Sonora: Bad Girl, de Lee Moses

«Bad Girl», de Lee Moses - Banda Sonora de «Apollonide - Memórias de Um Bordel», de Bertrand Bonello

domingo, 29 de janeiro de 2012

28 Dias Depois, de Danny Boyle (2002)

Cinco anos antes de nos levar até ao espaço, Danny Boyle trouxe uma espécie de apocalipse ao planeta Terra. Mais concretamente ao Reino Unido, onde tem origem uma estranha epidemia que se alastra rapidamente e tem como efeito transformar os humanos em zombies. 28 dias depois do início das primeiras infecções Jim (Cillian Murphy) acorda numa cama de hospital onde esteve em coma sem saber muito bem o que se passou. Ao andar por uma Londres completamente deserta acaba por descobrir que algo não está bem quando tem o primeiro encontro com os infectados. Com a ajuda de Selena (Naomie Harris) e Mark (Noah Huntley) consegue escapar e esta dupla de sobreviventes explica-lhe o que se passou ao longo das últimas semanas.

«28 Dias Depois» é um daqueles filmes que toda a gente fala bem e fazem nascer o chamado hype que nos leva a ficar com vontade de ver um determinado filme. Confesso que depois de o ver fiquei um pouco desanimado. Como aqui escrevi ontem, a propósito de «Missão Solar», Danny Boyle não é dos meus realizadores favoritos. E este filme de terror é, na minha opinião, um falhanço. Talvez o problema tenha sido a vontade de Boyle fazer um filme de zombies diferente do cânone. Podia ter resultado bem, como em «Missão Solar» tinha resultado como filme de ficção científica diferente do habitual, mas não resulta. E o início de «28 Dias Depois», sobretudo nas sequências passadas numa Londres assustadoramente vazia, prometia tanto. O problema é na segunda metade do filme, onde o filme se perde completamente.

O argumento, assinado por Alex Garland, é do mais básico que há, chapa 4, não há grandes sustos nem reviravoltas que valham a pena ficar à espera do que irá suceder às personagens. A banda sonora, que neste tipo de filmes é essencial para manter a atmosfera em suspenso, também não funciona da melhor maneira. Depois de uma boa surpresa chamada «Missão Solar», que quase me fez começar a olhar para a obra de Boyle com outros olhos, chega uma desilusão que me volta a afastar dos filmes do realizador britânico. Pelo menos durante os próximos tempos.

Nota: 2/5

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sábado, 28 de janeiro de 2012

Missão Solar, de Danny Boyle (2007)

Goste-se ou não de Danny Boyle (e eu por acaso até nem sou grande fã, apesar do genial «Trainspotting»), se há coisa que o realizador britânico não pode ser acusado é de não arriscar, de vez em quando, fazer obras um pouco diferentes do normal. É esse o caso de «Missão Solar», um filme de ficção científica, que no conjunto da carreira de Boyle pode ser colocado ao lado do filme de terror «28 Dias Depois». Ambos os filmes contam com argumento de Alex Garland, o autor do romance «A Praia», que também foi adaptado pelo realizador em 2000 e cujo resultado não foi o melhor.

Realizado antes do oscarizado «Quem Quer Ser Bilionário?», «Missão Solar» relata os acontecimentos de uma missão espacial cujo objectivo é lançar uma bomba contra o Sol para 'ressuscitar' a estrela e assim salvar a Terra. A missão até estava a correr da melhor maneira até que a nave recebe um pedido de ajuda supostamente enviado por uma anterior missão, que se julgava perdida. A tripulação resolve então descobrir o que se passou e talvez até obter uma ajuda extra na missão. E começam os problemas.

Muito provavelmente «Missão Solar» não ficará para a história do Cinema como um clássico de ficção científica, mas o resultado final não é mau de todo e consegue cumprir o que lhe é pedido: ser um bom filme de entretenimento, sem entrar em grandes devaneios, apesar da metade final começar a entrar por caminhos um pouco mais filosóficos. Com um elenco que reúne algumas caras conhecidas, mas sem grandes estrelas (talvez as maiores sejam Cillian Murphy, que transita do anterior «28 Dias Depois», e Chris Evans, que recentemente interpretou Capitão América), Boyle conseguiu mostrar-nos uma boa história de ficção científica e as relações humanas entre os tripulantes, que muitas vezes têm de deixar ficar para trás os próprios sentimentos em prol do bem de todos e da missão que lhes foi incumbida.

A juntar a tudo isto temos uma excelente banda sonora, assinada a meias pela banda Underworld (que já tinha 'emprestado' o tema «Born Slippy» a «Trainspotting») e pelo compositor John Murphy (outro nome que tinha colaborado com Boyle em «28 Dias Depois»), que consegue dar alguma força à acção quando é preciso. E para quem nem gostava tanto dos filmes deste realizador antes de ver este filme, «Missão Solar» até acabou por se tornar uma agradável surpresa.

Nota: 4/5

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Os Descendentes, de Alexander Payne (2011)

Apesar de apenas contar com seis longas metragens no currículo, Alexander Payne é um dos valores seguros do actual Cinema norte-americano. E «Os Descendentes», não sendo a sua melhor obra, não foge à regra. Tal como nos anteriores «As Confissões de Schmidt» e «Sideways», este é um drama simples, com algumas pitadas de comédia, que vive à conta de uma boa história e de boas interpretações, sobre alguém que chega a um certo ponto da sua vida e se apercebe que tem de se descobrir a si próprio.

Neste caso trata-se da história de Matt King (Clooney), um advogado que vive no Havai e descobre que a sua esposa, que está em coma e vai ter de ser desligada das máquinas, tinha um amante. Pelo meio Matt tem de aprender a lidar com duas filhas em idades complicadas (10 e 17 anos) e de avaliar a venda de uns terrenos familiares que farão os seus muitos primos (ainda mais) ricos, além de tentar perceber se quer ou não conhecer o amante da sua esposa. Confrontado com todos estes dilemas e com tão pouco tempo para os resolver, o pobre advogado lá tem de se adaptar ao que lhe vai aparecendo.

Além de um bom argumento, e Alexander Payne consegue provar mais uma vez que os sabe escrever, «Os Descendentes» conta também com excelentes interpretações, sobretudo de Clooney, que está em grande forma e esta semana acabou por ver o seu trabalho reconhecido com mais uma nomeação aos Óscares por este papel. Mas neste capítulo há que destacar também o desempenho da jovem Shailene Woodley, que interpreta a filha mais velha de Matt, e que apesar de não ter ainda grande experiência no cinema (tem apenas diversas
participações em séries de televisão no currículo) consegue esta à altura do pedido e dar resposta à sua complexa personagem: uma adolescente problemática que atravessa um período conturbado e vai sofrendo várias mudanças ao longo do filme. Apesar de não ser daqueles filmes perfeitos, «Os Descendentes» é um filme simples que nos deixa com um sorriso nos lábios no final.

Nota: 4/5

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Em Cartaz: Semana 26/01/2012

Polissia, de Maïwenn
Attenberg, de Athina Rachel Tsangari
Três Vezes 20 Anos, de Julie Gavras
Uma Pequena Zona de Turbulência, de Alfred Lot
Um Homem no Limite, de Asger Leth
J. Edgar, de Clint Eastwood
Underworld: O Despertar, de Måns Mårlind e Björn Stein
País do Desejo, de Paulo Caldas

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Millennium 1 - Os Homens Que Odeiam as Mulheres, de David Fincher (2011)

A mania dos remakes em Hollywood é algo que não vem de hoje. Mas além de ser uma mania, quase tão irritante como a das sequelas desnecessárias, o pior é quando os remakes não vêm acrescentar nada de novo em relação ao original, que ainda está relativamente fresco na nossa memória (foi só em 2009 que Niels Arden Oplev adaptou o primeiro episódio da trilogia). A sensação que tive ao ver esta adaptação de David Fincher foi a mesma que tive há uns anos quando estreou «The Departed - Entre Inimigos», de Martin Scorsese, um remake de um dos meus filmes favoritos na altura («Infernal Affairs - Infiltrados», de Wai-keung Lau e Alan Mak). Não é um mau filme, mas desilude quem gostou do original. O tempo acabou por curar o meu problema em relação ao filme de Scorsese quando o voltei a ver mais tarde e provavelmente irá acontecer o mesmo com este filme quando o vir no futuro. A lição que retirei do filme que finalmente deu o Óscar ao realizador de «Taxi Driver» foi que para vermos um remake temos de esquecer o original.

Depois desta introdução, vamos então ao filme de Fincher, o realizador incumbido de fazer a versão americana do primeiro volume da trilogia Millennium, do sueco Stieg Larsson (quem não conhecer os livros, recomendo bastante, sobretudo este primeiro tomo). No centro da história temos uma investigação feita por Mikael Blomkvist (Daniel Craig), um jornalista caído em desgraça depois de uma reportagem que em vez de furo saiu furada, que é contratado por Henrik Vanger (Christopher Plummer) para descobrir a verdade sobre o desaparecimento de uma sobrinha. Esta investigação acaba por trazer à luz do dia os segredos mais obscuros da família Vanger, que no passado teve ligações a movimentos nacionalistas. Para ajudá-lo na sua tarefa, Mikael conta com a ajuda da jovem hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara). Todos estes ingredientes tornam «Millennium 1 - Os Homens Que Odeiam as Mulheres» uma história negra q.b. para corresponder ao que temos visto anteriormente na obra de Fincher.

Como disse lá mais acima, «Millennium 1 - Os Homens Que Odeiam as Mulheres» não é um mau filme, pois estamos perante uma obra de um dos realizadores mais regulares do actual panorama de Hollywood. Goste-se ou não do seu meio de origem (os videoclips), David Fincher é um daqueles nomes que sabe o que faz quando está na cadeira de realizador. E aqui nada falha: uma boa direcção de actores, boas interpretações (Rooney Mara está muito bem, mas é difícil esquecer a Lisbeth Salander de Noomi Rapace), um ambiente negro bastante adequado à série,uma bela fotografia que nos leva mesmo a ter frio na gélida Hedestad onde decorre parte da acção e uma banda sonora quase genial, uma vez mais assinada pela dupla Trent Reznor e Atticus Ross que já tinha trabalhado com Fincher no filme anterior. Só a versão de «Immigrant Song», a banda sonora destacada esta semana e que surge no genérico inicial, é simplesmente viciante. O resto é tal e qual o que a dupla já tinha feito em «A Rede Social»

Tudo isto está bem. O diabo está nos detalhes, como diz o ditado popular. E esses detalhes estão espalhados pelo filme. Por exemplo, compreende-se que as personagens falem inglês, faz todo o sentido visto ser uma adaptação americana. Não faz sentido é grande parte das personagens ter um ligeiro sotaque. O mesmo acontece com alguns elementos dos cenários, sobretudo quando vemos as personagens a pegar em livros e revistas e reparamos que estas publicações são em sueco. São pequenos pormenores, que a juntar ao facto de o remake em si não trazer nada de novo em relação ao original, que acabam por desiludir. Para quem não viu o filme de Niels Arden Oplev, talvez este seja um grande filme (tirando estes pequenos detalhes, até é). Mas para quem ainda tem a primeira adaptação fresca na memória, o mais recente filme de David Fincher acaba por ser uma grande desilusão. Talvez daqui a alguns anos a minha opinião em relação seja diferente. Por agora, é esta.

Nota: 3/5

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CINEdrio e numa paragem do 28 marcam presença na primeira final da Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty

Grande final: numa paragem do 28 (a preto) vs.CINEdrio (a azul)





As meias finais da Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty já terminaram e os finalistas da primeira edição da iniciativa estão no terreno: CINEdrio, a equipa da casa, e numa paragem do 28. Parabéns aos finalistas e agora é tempo de começar a votar. Tal como nas jornadas anteriores, os votos estão a decorrer nos blogues participantes na Copa. Neste caso, podem votar neste post ou ali ao lado. Agora, resta-me desejar os parabéns aos finalistas e que ganhe o melhor.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Banda Sonora: Immigrant Song, de Karen O, Trent Reznor, Atticus Ross

«Immigrant Song», de Karen O, Trent Reznor, Atticus Ross (original de Led Zeppelin) - Banda Sonora de «Millennium 1 - Os Homens Que Odeiam as Mulheres», de David Fincher

domingo, 22 de janeiro de 2012

Noite na Terra, de Jim Jarmusch (1991)

Crítica com spoilers
Cinco cidades (Los Angeles, Nova Iorque, Paris, Roma e Helsínquia), cinco táxis, cinco histórias. Tudo isto se passa no mesmo dia e à mesma hora e é isto que nos mostra Jim Jarmusch na sua quinta longa metragem «Noite na Terra». Recorrendo a sketches cómicos (algo que também encontramos noutras obras do realizador), mesmo se o último for mais trágico que cómico (bem, depende do ponto de vista, mas já lá vamos) cada um dos episódios pode ser visto como uma história sobre aquele local específico e que apenas poderia ter lugar ali. Mas no fundo, a Terra é tão grande que há milhões de histórias a acontecer a toda a hora. E que melhor sítio para conhecer algumas do que os seus táxis?

Vamos então aos pequenos episódios. Em Los Angeles conhecemos dois universos diferentes: a cultura do automóvel que reina na cidade californiana onde uma rapariga taxista (Winona Ryder) prefere ser mecânica a aceitar uma oferta para ser actriz no mundo de Hollywood. Passando para Nova Iorque encontramos um imigrante vindo da Alemanha de Leste (Armin Mueller-Stahl) no seu primeiro dia como taxista e cuja primeira corrida consiste em levar um homem até Brooklyn, mas pelo caminho os papéis invertem-se e o condutor passa a passageiro. Paris, cidade das luzes, mais um imigrante (Isaach De Bankolé), desta vez africano bastante temperamental, que acalma um pouco quando leva no carro uma passageira cega (Béatrice Dalle). Em Roma temos direito a um verdadeiro one man show por parte de Roberto Benigni, o chauffer de praça que tem o prazer de levar no carro um padre e aproveita a oportunidade para contar os seus pecados. Esta corrida de táxi internacional termina na capital finlandesa, num episódio inspirado no cinema de Aki Kaurismaki, onde um taxista chamado Aki é chamado por três bêbedos que passaram a noite a afogar as mágoas de um deles, naquele que consideram ser o pior dia da vida do pobre diabo. Mal eles sabiam a história de vida de Aki.

Além de todos os episódios serem passados dentro de um táxi (poucas cenas são filmadas fora das viaturas), praticamente todos estão filmados da mesma maneira simples e todas as histórias conseguem transmitir o espírito das cidades onde decorrem. O único episódio que acaba por não ser tão original, o que não significa que seja bom, é talvez o último episódio, que por vezes parece mesmo uma obra assinada por Kaurismaki (por tudo, desde a cidade demasiado cinzenta às personagens que estão literalmente na fossa, mas que nos fazem rir com as suas tragédias - quem já viu algum filme de Kaurismaki sabe como o finlandês consegue criar uma história cómica a partir da maior das tragédias). E claro que há episódios melhores do que outros, como sempre acontece neste tipo de filmes. A grande vantagem de «Noite na Terra», onde ainda temos direito a uma excelente banda sonora assinada por Tom Waits, nome que se cruza várias vezes na obra de Jarmusch, é que no todo acaba por ser um filme equilibrado.

Nota: 4/5

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sábado, 21 de janeiro de 2012

Habemus Papam - Temos Papa, de Nanni Moretti (2011)

João Paulo II morreu. No Vaticano, dezenas de cardeais reúnem-se em conclave para escolher o novo Santo Padre e a escolha recai sobre o cardeal Melville (Michel Piccoli). A princípio renitente o novo Papa, pressionado pelos outros cardeais que não queriam tal cargo a aceitar o posto, lá acaba por aceitar a tarefa de ser o líder da Igreja Católica. Mas quando chega a hora de enfrentar os fiéis e se apresentar ao mundo como o sucessor de João Paulo II, Melville sofre um ataque de pânico e desaparece nos corredores do Vaticano.

É este o ponto de partida de «Habemus Papam - Temos Papa», o último filme de Nani Moretti, que volta a dar uma perninha como actor, desta vez no papel de um psicanalista contratado pela Santa Sé para 'curar' o novo Papa e tentar resolver o assunto. Não se trata de um filme sobre Religião e os que tinham medo que este fosse uma sátira/crítica à Igreja Católica realizada por Moretti, como se temeu segundo o próprio realizador já admitiu em entrevistas, podem estar enganados. Isto apesar de uma ou outra bicada lá pelo meio, mas nunca sem ser um ataque frontal. «Habemus Papam - Temos Papa» é uma comédia séria, por vezes em tons melancólicos, bem ao estilo de Moretti, sobre a solidão de alguém que tem a oportunidade de chegar ao topo da hierarquia do universo onde sempre viveu e não sabe o que fazer a partir de agora. Tratando-se de alguém já com uma certa idade, esta ansiedade e sentimento de não estar à altura de tamanha responsabilidade pesa ainda mais na cabeça de Melville.

E este retrato é possível graças à presença de um actor, o francês Michel Piccoli, nome grande (enorme, diria eu) que nos tem habituado a grandes interpretações desde os anos 1950 em filmes dos principais realizadores europeus e que neste caso volta a brilhar como nunca. Só aquela cena final (um dos grandes finais vistos nos últimos tempos) é de uma sinceridade brutal que espelha bem o que vai na alma da personagem. A fuga de Melville pelas ruas de Roma pode ser vista por muitos como um acto de cobardia, mas mais não é do que um acto de coragem de alguém que quer saber o que se passa consigo próprio.

«Habemus Papam - Temos Papa» não é um filme extraordinário, mas é um bom filme, algo cada vez mais raro no cinema italiano dos últimos anos. Apesar de algumas falhas (um cardeal perdido em Roma, quando toda a gente está de olho no que se passa no conclave, sem que ninguém dê por ele é no mínimo estranho...mas não nos podemos esquecer que é um filme e é essa a magia da Sétima Arte), tem grandes achados, sobretudo nas sequências onde a personagem de Moretti dialoga com os cardeais. O psicanalista é mesmo o lado oposto da moeda neste filme: Melville está fora do Vaticano, em liberdade, e ele está preso, porque em período de conclave ninguém que esteja dentro do Vaticano pode sair enquanto não for anunciado o nome do novo Papa. Podia também abordar uma certa crítica velada aos Media, mas penso que o texto já se alongou e resta-me dizer: temos filme!

Nota: 4/5

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Deus da Carnificina, de Roman Polanski (2011)

«O Deus da Carnificina» é um daqueles exemplos perfeitos de que não vale a pena complicar muito para fazer um grande filme. Em cena apenas quatro actores (e um grupo de garotos) que em menos de hora e meia (79 minutos, para ser mais preciso, é esse o tempo do filme) nos mostram como um grupo de pessoas vai de um estado dito civilizado à mais pura discussão, provando que as aparências iludem. E de que maneira.

Tudo começa quando Zachary se chateia com o colega Ethan, porque este não o quer no grupo de amigos, pega num pau e parte dois dentes de Ethan. O que começa como uma briga de dois miúdos com pouco mais de 10 anos, numa sequência genial que nem sequer precisa de som para nos mostrar o que se passou (quase que poderíamos dizer que parece saída de um filme mudo), transforma-se na cena seguinte num potencial cenário mais pacífico, quando os pais das crianças tentar resolver a questão amigavelmente. Mas aos poucos as discussões começam por ninharias. Primeiro entre os dois casais e às tantas já os membros dos próprios casais estão às turras, vindo ao de cima os podres de problemas que todos julgavam não existir.

Baseado numa peça de teatro (daí a escassez de meios) escrita por Yasmina Reza e com interpretações de luxo dos quatro actores principais (Jodie Foster, John C. Reilly, Kate Winslet e Christoph Waltz), qual deles o melhor, «O Deus da Carnificina» conseguiu ser (mais) um dos grandes filmes estreados no final do ano passado. Mesmo tendo sido realizado por um Roman Polanski em modo de retiro forçado, devido a questões legais, o resultado está à altura da obra do polémico realizador polaco e é um dos filmes que vale mesmo a pena ver por estes dias.

Nota: 5/5

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Manhattan, de Woody Allen (1979)

Há filmes sobre os quais é difícil escrever, tal é a admiração que temos por eles. Daí há dias, depois de ter (re)visto «Manhattan», a primeira coisa que me lembrei de partilhar aqui sobre este filme foi um dos planos mais belos daqueles 96 minutos: Woody Allen e Diane Keaton debaixo da ponte de Brooklyn, depois de uma caminhada nocturna pelas ruas de Nova Iorque, numa belíssima fotografia a preto e branco. Estão ali duas das chaves do filme e, acrescentaria eu, de toda a obra do cineasta. Uma homenagem à cidade, local por onde Woody Allen tantas vezes nos levou, e as (sempre complicadas) relações entre casais.

Há quem diga que este é um filme sobre Nova Iorque. Não o vejo tanto assim. Para mim «Manhattan» é tanto um filme sobre Nova Iorque, como o mais recente «Meia Noite Em Paris» é um filme sobre a capital francesa. Apesar de o espírito de ambas as cidades estar bastante bem captado nos dois filmes, sobretudo nas magnificas sequências iniciais de ambos, «Manhattan» é, mais uma vez na obra de Allen, um filme sobre relações como só o realizador as sobre mostrar, através das picuinhices e neuroses da sua muito peculiar personagem.

Desta vez encontramos Allen na pele de Isaac, uma homem divorciado na casa dos 40 apaixonado por Tracy (Mariel Hemingway), a sua muito jovem namorada de 17 anos. Apesar da paixão que os une, Isaac tudo faz para que a relação não se torne uma prisão para os dois, sobretudo para a jovem, pois acredita que ela tem de ter mais experiências e não deve ficar logo agarrada a alguém tão velho. Em contraponto à relação instável entre Isaac e Tracy, temos um casal amigo, Yale (Michael Murphy) e Emily (Anne Byrne), que vivem uma situação aparentemente mais estável até que surge em cena a amante de Yale: Mary (Diane Keaton). São todos estes dilemas, ao qual se junta ainda a paixão entre Isaac e Mary, depois de ele abandonar Tracy e ela abandonar Yale, que fazem de «Manhattan» um dos melhores filmes de Allen e desde agora o meu favorito do realizador.

Está lá tudo. Excelentes diálogos, cenas lindíssimas filmadas num preto e branco que funciona de forma perfeita (todas aquelas cenas onde as personagens surgem quase como se fossem sombras, desde o já referido plano da ponte de Brooklyn à visita ao museu, são inúmeros os exemplos) e uma história que fica a milhas de muitos filmes centrados no Amor e nas relações complexas entre casais, que tanto poderia resvalar para a comédia idiota (em momentos segue por aí, mas sempre ao melhor estilo de Woody Allen e os seus dilemas tão estranhos que parecem impossíveis de acontecer - mas nunca nos aconteceram situações semelhantes às que são retratadas nos filmes de Allen?), como para o dramalhão de fazer chorar as pedras da calçada. Felizmente não envereda por nenhum dos dois caminhos.

Se depois de ver isto não se começar a gostar de Woody Allen, não há nada a fazer. Mas perde-se toda a magia de um dos melhores filmes de sempre, onde as relações são retratadas quase como elas são de facto e feito numa das melhores cidades do mundo. Quem já lá esteve, sabe do que estou a falar.

Nota: 5/5

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